Primeiros passos de um espaço escola! por Carlos Wagner Jota Guedes

joao no bebedouro

Papo de Pai

“Papai, agora eu sou do primeiro ano, mas estou me sentindo como do segundo ano!” foi esta a frase que o João utilizou para dizer a novidade e a alegria de viver esta novidade que se apresentava em fevereiro de 2014. Acabou a educação infantil e começou o ensino fundamental. Ele se sente muito mais criança do que antes!!!!! Como diz a música do conjunto Palavra Cantada, feita para comemoração de aniversário, mas aqui utilizada muito além do aniversário:

“Hoje eu sinto que cresci bastante.

Hoje eu sinto que estou muito grande.

Sinto mesmo que sou um gigante.

Do tamanho de um elefante”.

João está agora em uma escola menor. Depois de ter passado pela experiência de uma escola com aproximadamente 2700 alunos, 18 alunos numa sala, estamos numa escola com no máximo 100 alunos, numa sala com 8 alunos. Junto a professora regente teremos agora uma acompanhante de vida escolar (grosso modo, é uma estagiária de pedagogia que irá fazer um acompanhamento mais detalhado e direcionado do cotidiano escolar para as necessidades educacionais especiais do João) e novos progressos são possíveis de se enxergar já no primeiro mês de aula. João está mais confiante, mais independente, até mesmo, mais atrevido. É impressionante observar como o João cresceu, desenvolveu, interage e fala. Quando olho para ele, me emociono de ver como aquele bebê se transformou em uma criança e que os debates e preocupações de antes se transformaram em outros. Se você retomar a leitura dos primeiros textos desta coluna, poderá observar que o debate era essencialmente sobre a necessidade de manter-se vivo, hoje e cada vez mais é fazer-se vivo e vivo em abundância.

Neste primeiro mês em escola nova fizemos o que nunca havíamos feito antes: levamos o João a uma festa de aniversário de um colega da escola. Embora ainda tenhamos muito para crescer neste contexto, foi uma vitória.

Neste primeiro mês também, o João chegou em casa todos os dias sujo, imundo, fedido e exausto. Tudo isso porque ele jogou bola, rolou no tanque de areia, fez atividades de escrita, “pintou e bordou”. Ele me conta sempre que defendeu bola (como o pai, decidiu estar goleiro), que bateu pênalti, que fulano, beltrano ou sicrano fizeram gols e/ou tomaram cartão. Conta que fez uma atividade que envolvia este ou aquele objetivo e que vai cuidar das plantas no projeto que sua turma está envolvida. O João que sempre conheceu todos nas escolas pelas quais passou, agora convive com todos. Essa é uma grande novidade para nós e a escola tem trabalhado de forma natural.

Ainda na primeira semana, diante da novidade que era a cadeira de rodas para os demais colegas, a professora debateu com a turma que a cadeira de rodas não era carrinho de brincar, portanto, não poderiam sair empurrando o João sem o consentimento dele e sem um adulto por perto. Daí surgiram novas perguntas, entre elas, porque o João não anda? Percebo que a pergunta foi bem discutida quando vejo que ao chegar à escola os colegas chamam o João para jogar bola, sem discutir se a cadeira atrapalha ou não, sem se preocupar se o João consegue ou não ter habilidades “perfeitas” para fazer um lançamento. Observo que o João está fazendo parte (fazer parte parece-me melhor que usar a palavra incluído) do cotidiano dos colegas em outras esferas da vida, que não seja estritamente o de estudante. É oportuno o nome da escola que o João estuda: Espaço Escola. Um espaço que ocupamos para aprender com, para viver com, para trocarmos com. Pedagogia essa que só tinha visto em livros e que hoje floresce em minha frente.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

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