O segundo professor para o Pedro: o início de nossa vivência em uma escola pública em Paris, por Sônia Pessoa

foto-2Eu nunca consigo entender direito porque sempre vou para as reuniões na escola com a sensação de que algo ruim vai acontecer. Meu coração fica apertado e paira um sentimento estranho, indefinível. E ao sair os meus olhos, quase sempre, estão cheios de lágrimas, ora o coração aliviado, ora o coração ainda mais apertado.

No encontro de hoje, pedido pelo diretor da escola pública Prisse d’Avennes, onde o Pedro estuda, não foi diferente. O banho que tomei antes de sair tinha o objetivo de tirar das costas aquele peso da noite mal dormida. Nada adiantou. Tudo anda muito bem na estada do Pedro por lá, as notícias são boas, mas nem por isso consigo me livrar do fantasma da reunião.

A reunião foi convocada há 15 dias, quando a escola entrou de férias. O objetivo era sugerir a redução da carga horária do Pedro na escola. Como a escola é integral 4 dias por semana, ele tem ficado muito cansado, mesmo almoçando em casa, tirando uma soneca, e retornando à escola. No turno da tarde rende pouco e fica sonolento. Nesse meio tempo, durante as férias, a prefeitura de Paris nos enviou uma carta com a aprovação do AVS, auxiliar de vida escolar, que estará disponível para o Pedro. E nesse meio tempo, o diretor também foi comunicado sobre a decisão da prefeitura e já tem até o nome do auxiliar, que deve começar na semana que vem.

Com a chegada do AVS, que vai ficar acompanhar todas as atividades do Pedro na escola, a psicóloga, a professora e o diretor, que participaram da reunião, decidiram esperar para fazer uma nova avaliação. A ideia deles é que o Pedro tenha algumas atividades realizadas individualmente com o AVS, dentro da própria sala, outras com a turma toda, e outras com pequenos grupos. Decidiram apresentar o AVS como um segundo professor, que vai ajudar a Madame Dahy em atividades com algumas crianças que precisam de mais atenção, em especial o Pedro. Vou chamar o AVS também de segundo professor porque acho que é mais ou menos isso que ele acaba sendo…

Imagino que a maioria esteja se perguntando como se dá todo o processo: como a escola é pública, o AVS é contratado, pago, administrado pela prefeitura, a exemplo do que ocorre em escolas públicas no Brasil. Sabemos que há um caminho enorme para apenas quatro meses: a confiança entre o aluno e o AVS, entre o AVS e o professor, entre o AVS e os demais alunos, a manutenção da autonomia conquistada pelo Pedro, a garantia de que ele vai ter o espaço próprio junto com os colegas e a liberdade para se comunicar e continuar se socializando com os colegas…

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No Brasil como na França, existe uma grande preocupação sobre a formação dos AVS e a qualidade do trabalho. E sei também que a educação inclusiva na França é muito criticada, há problemas sérios especialmente com relação às crianças com deficiências graves. Há muitos problemas também na educação pública para os autistas.

Como aprendi nos últimos anos, vou vivendo um dia de cada vez. E vou pensar nisso quando o AVS, o meu filho, os colegas e a professora estiverem adaptados. Por enquanto vou curtir a sensação de coração aliviado, foi assim que saí da reunião agora há pouco. Só me dei conta que estava mais leve quando saí da escola sem casaco, apenas com uma blusa fina, sentindo o sol brilhar e bater de leve na minha pele – algo bem raro desde que chegamos há 3 meses. Paris está com um céu azul maravilhoso, como se sorrisse pra gente. Ao abraçar o Pedro, ele me perguntou: – Mas você está chorando”? … a resposta não podia ser outra: – Chorando de emoção por tudo de bom que acontece com você e tudo de bom que você traz para a nossa a vida; um desafio e uma lição a cada dia.

 

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