Quando é preciso ensinar o movimento ao corpo, por Sônia Pessoa

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É possível que a criança, em alguns casos, não saiba se movimentar ainda que seja capaz de fazer determinado movimento. Isso mesmo. O que vou falar não tem nada de científico, como sempre, é fruto da minha observação aqui em casa e diz respeito a um único caso, do meu filho, que tem 7 anos e meio, e tem hipotonia e sequelas de coordenação motora não se sabe ao certo se por conta da hidrocefalia, das várias cirurgias neurológicas, do longo período em que passou na cama… mas isso hoje não importa.  Quero falar mesmo da importância de insistir com determinadas atividades quando a gente entende que é possível realizá-las.

No nosso caso, o corpo parece desconhecer alguns movimentos. Então é preciso ensiná-lo a fazer. E é preciso treinar para que o movimento continue sendo feito até que o corpo se acostume com ele e passe a executá-lo no que chamamos de ‘piloto automático’. É o tal do planejamento motor ou praxia, em uma explicação bem simplória, aquele conjunto de habilidades que permite à pessoa realizar movimentos em sequência, entender o movimento, processar e realizar mesmo que ele nunca tenha feito isso antes.

Muitas vezes a criança aprende o movimento, o executa em algumas situações, mas pode ‘esquecer’, se passar muito tempo sem fazer. Isso se dá em situações bastante simples para a maioria das pessoas, como subir e descer escadas, dar um passo mais largo, passar em uma rampa, entrar ou sair do ônibus ou do metrô, manipular talheres e brinquedos, abrir e fechar o zíper e os botões da roupa e por aí vai.

Desde que iniciamos a nossa temporada em Paris nosso filho tem sido exposto a uma série de desafios da própria cidade. Usamos o transporte público, logo, ele é obrigado a subir e descer escadas, a andar bastante pelas ruas, a entrar e sair do ônibus e do metrô, a se equilibrar com o trem em movimento quando não há lugar para sentar… Em três meses é possível perceber como os movimentos realizados com muita dificuldade logo na chegada vão se tornando, gradativamente, mais naturais. É algo que nos leva a pensar sobre a vida no Brasil: a gente acaba, por muitos motivos que não vou relacionar aqui, usando muito carro, caminhando pouco diariamente, e expondo menos a criança ao espaço público. Sem querer, ela é privada de movimentos espontâneos… de uma certa maneira, a minha intuição diz que esse ‘conforto’ de carros e ambientes fechados, no nosso caso, é quase um inimigo, nos reservando mais horas de fisioterapias e exercícios programados (com todo respeito e reconhecimento aos 7 anos e meio que o meu filho passa por excelentes consultórios, clínicas e profissionais. Certamente ele não estaria nessa condição física se não tivesse experimentado tudo isso!). É que, quando a gente experimenta viver longe de consultórios a gente alimenta a ideia, o sonho e, talvez, a ilusão, de que essa situação será para sempre.

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