Do ‘garrancho’ à letra cursiva, por Sônia Pessoa

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De uns tempos para cá o meu filho cismou porque cismou que quer aprender a fazer letra cursiva. Desde que começou a ver no Brasil a professora trabalhar em sala de aula e os colegas ‘responderem’ bem à atividade, ele sempre registra o seu desejo. A gente vai conversando, explica daqui, explica dali, fala que cada um tem a hora de aprender, um jeito de aprender, que ele vai conseguir e que, enquanto isso, é preciso treinar muito.

“Tá bom, mãe, já sei, tenho que fazer o para casa, tenho que treinar. Mas eu quero uma letra bonita, quero escrever letra cursiva igual ao fulano, fulano, fulano. A minha letra é feia”… e assim vai citando vários colegas.

Nosso caso é curioso. Talvez existam muitos por aí e eu não saiba porque há um tempo eu desisti de tentar ler e saber tudo… Pedro tem 7 anos e meio e faz desenhos básicos, semelhantes aos de uma criança de 3 anos e meio.

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Nossa! Como custei para ter essa avaliação. No geral, os profissionais que eu consultei, não sei se por constrangimento, receio, alguma norma ou ética profissional, ou outro sentimento, evitam fazer a relação entre a idade e a escrita ou o desenho do meu filho. Entendo perfeitamente que cada criança se desenvolve de uma maneira, em uma época, e que tudo é possível. Mas acredito também que o parâmetro é importante tanto para a gente entender a criança, o seu potencial, os desafios que temos pela frente, enfim, para saber cuidar e conversar com a criança. No ano passado um teste realizado com neuropsicólogas nos deu essa dimensão e é mesmo o que a gente pensava. Por outro lado, há uns dois anos ele escreve. No início era uma simples reprodução das letras, de maneira bem desordenada e com tamanhos imensos. Atualmente sabe as letras, a ordem em que elas aparecem, diferencia os sons, sabe onde vem S e SS, por exemplo, e outras grafias mais complexas, ou seja, sabe escrever em português e, agora, sabe escrever várias palavras em francês a partir do início da escola em Paris.

O curioso é que se escreve sozinho não consegue seguir uma lógica no caderno, cada letra sai de um tamanho e em um lugar diferente da página. Se a gente faz as marcações ele tenta seguir direitinho, vai se esforçando para conseguir que o ‘caderno fique bonito’, como ele mesmo diz. E sempre, durante a atividade, é preciso lembrá-lo de seguir as linhas e os tamanhos… Mas por enquanto, é tudo em letra de imprensa. Nos últimos tempos fazer a lição de casa estava virando um problema com tanta reclamação porque queria tentar a tal letra cursiva. Resolvi experimentar e passei a tarefa da lição de casa para o pai. Toda vez que ele diz que quer aprender a fazer letra cursiva, o pai lhe conta que não sabe fazer cursiva e que resolve a vida dele com a outra letra mesmo e que está tudo bem… Ele acha engraçado, se diverte e faz a lição de casa sem reclamar…

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E a gente super comemora o curso da letra, afinal, para nós, a cursiva é um ‘ornamento’, uma exigência que talvez faça sentido para as escolas e seja uma tradição para muitas pessoas. Em famílias nas quais é preciso flexibilizar para seguir, ela só vira assunto quando abordada pelo próprio filho, que tanto almeja um dia conseguir fazê-la. Algum conforto nos trazem os tempos de tanta tecnologia em que algumas escolas já usam tablets, sendo o aluno exigido muito mais na sua digitação do que na escrita. E como diz a minha irmã, quando queria aprender a ler, ele lutou contra muitas dificuldades porque queria realmente aprender. E vai acabar aprendendo a cursiva de tanto querer…

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