Os desafios da educação para estudantes autistas

Por – Renato Deccache – renato.deccache@folhadirigida.com.br / Folha Dirigida

Crédito: Arquivo
É comum ouvir dos educadores, opiniões sobre a necessidade de se promover uma educação inclusiva, que possibilite o acesso à escola a todo tipo de aluno. E um dos desafios neste campo é o atendimento a estudantes que sofrem com distúrbios que dificultam a aprendizagem. Há vários tipos e um dos mais discutidos, nos últimos tempos, é o que os especialistas chamam de Transtorno do Espectro Autístico, mais conhecido como autismo.Formada em Direito pela Universidade Gama Filho e em Pedagogia pela Universidade Candido Mendes, a educadora Priscila Romero tem se dedicado aos estudos no campo da educação especial, principalmente em relação ao autismo. Aluna do curso de especialização em Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), e do curso de Especialização em Educação Especial com Ênfase em Autismo do Centro Sul Brasileiro de Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação (Censupeg) — formação que é custeada pela Esil Educacional, instituição em que atua—, ela também convive com o desafio na prática.

A professora trabalha diretamente com autistas e portadores de outros distúrbios. A partir de seus estudos acadêmicos e da vivência com crianças que possuem o transtorno autístico, Priscila é enfática em dizer que, mesmo em graus mais severos do autismo, a união de infraestrutura pedagógica adequada e professores qualificados podem fazer com que o aluno aprenda e se desenvolva. “Algumas podem até ter um pouco mais de dificuldades, não vão entender determinados assuntos, por conta da abstração. Mas elas aprendem e pode desenvolver uma vida normal”, ressaltou a educadora.

FOLHA DIRIGIDA — Poderia nos explicar, em linhas gerais, o que é o autismo?
Priscila Romero —
O autismo é considerado como transtorno do desenvolvimento, que afeta principalmente a capacidade de interação social e de comunicação. A criança passa a ter interesses restritos e algumas estereotipias. Ultimamente não se fala mais autismo e sim Transtorno do Espectro Autístico, porque são diversos graus, e muito diferentes entre si. É um transtorno muito complexo, mas as características principais são a dificuldade com a interação social, os interesses restritos e movimentos estereotipados. Eles não curtem muito as atividades corriqueiras de uma criança, alguns não têm interesse por brincadeiras.

Como esse distúrbio influencia na vida escolar do estudante?
Algumas crianças apresentam hiperatividade, dentro do distúrbio autístico. Em outras, a característica principal é a falta de concentração. A memória deles costuma ser muito boa. O que os prejudica mesmo são a hiperatividade e as estereotipias, porque enquanto eles estão fazendo um movimento repetitivo, não focam no que está sendo ensinado ao seu redor, portanto, não conseguem captar o aprendizado, justamente por conta da falta de concentração. Quando atraídos, eles conseguem prestar mais atenção e realmente aprender.

O que é fundamental o professor fazer para ajudar o autista a superar estes obstáculos?
O primeiro passo é criar um vínculo, como fazemos com qualquer criança. Quando eles começam a confiar no professor, funciona melhor. Mas, dentro de sala de aula, é preciso que os alunos tenham material concreto, por exemplo: em Matemática, material dourado para fazer as contas. Outra opção é usar gravuras para passar a informação textual, pois, pelas imagens, é possível alcançá-los. Vale a pena também acompanhar o olhar do estudante, abaixar para ficar na mesma altura dele, entre outras práticas.

Você falou sobre a necessidade de uso de material concreto. Por que o uso do material tradicional é menos eficiente?
Por conta da abstração, eles precisam de uma coisa mais concreta. Por melhor que seja o nível intelectual, eles precisam ter o apoio do concreto. Usamos videoaulas também, porque só a audição não lhes atrai.

Essas são estratégias que qualquer professor que tenha contato com autista pode utilizar, ou é necessário que ele tenha uma formação específica para ter condições de lidar também com os autistas?
Qualquer professor pode utilizar. O problema é que, muitas vezes, o professor não sabe as características do transtorno. Então é interessante sim estudar! Nós sentimos esta necessidade, para conhecer e alcançar os alunos. Em uma escola rica em recursos pedagógicos, o professor consegue alcançar o aluno com autismo. Não é um trabalho fácil, no entanto, é muito prazeroso!

Por que não é um trabalho fácil? qual é a maior dificuldade que os professores costumam encontrar?
Em diversas escolas, há muitos alunos em sala de aula, o que faz com que a criança que sofre do Transtorno do Espectro Autístico fique à parte. Na escola em que atuo, temos a mediadora e ela costuma sentar do lado da criança, com o intuito de atraí-la para a aprendizagem.

Muita gente defende, em relação à educação especial, política de inclusão, ou seja, de inserir alunos com turmas que não têm estudantes com distúrbios. Outros defendem a criação de núcleos específicos para estes alunos, até para um tratamento mais especializado. A seu ver, qual a melhor forma de lidar com o quem possui distúrbios de aprendizagem?
Crianças autistas em grau leve e moderado podem não ter problemas com a inclusão. Porém, no caso das que sofrem do distúrbio em graus mais severos, que não se comunicam, não interagem, não têm interesse por atividades, acredito que a educação especial, inicialmente, seria melhor proposta, porque os professores podem trabalhar com recursos que a própria Psicologia e a Fonoaudiologia desenvolveram para atuar com estas crianças. No entanto, elas precisam ver e estar com crianças que não sofrem com distúrbios para que possam ter atitudes mais próximas do modelo esperado.

Você falou em autismo grau leve e grau mais severo. Qual a diferença?
No caso do autismo leve, há pessoas que não conseguem interagir minimamente. Normalmente é alguém muito calado, mas que responde quando perguntado, participa do grupo, mas de certa forma percebe-se que não tem um grande interesse no que acontece ao seu redor. Um aspecto importante do autista também é que precisa manter uma rotina. A rotina lhe traz segurança, pelo fato de ele saber o que vai acontecer. Então, para alguns indivíduos com autismo, sair da rotina pode ser um grande problema. O grau mais severo é aquele em que a criança não se interessa por nada, não fala, não participa, não tem atenção ao que se passa ao seu redor, não tem interesse por crianças, nem por adultos. É denominado autismo clássico. É uma situação mais crítica. Além disso, esse quadro é acompanhado, muitas vezes, de um déficit intelectual e comportamentos disruptivos. São crianças que se autolesionam em crises. Mordem-se, batem a cabeça contra o chão, contra a parede. Porém, é importante frisar que, mesmo essas crianças podem ser compreendidas e educadas, passando a ter uma vida mais próxima do “normal”.

No caso do autismo de grau mais leve: as pessoas costumam confundi-lo muito com falta de interesse pela atividade escolar?
Antigamente, isto até poderia ocorrer. Mas hoje como há mais informação sobre este distúrbio, creio que não. Infelizmente, trabalhei em uma escola em que uma professora chegou a dizer: ‘fulaninho é autista, ele não aprende.’ E não era o caso; ele não era autista. Era um menino mais triste, que estava passando por uma situação difícil. Com isso, para ele, brincar com os colegas não importava muito.

Como você vê a inclusão de alunos com deficiência nas escolas brasileiras, de uma maneira geral? Acredita que ela tem ocorrido com o cuidado que deveria ter? Ou, no final das contas, o professor não tem as condições necessárias para isso?
A inclusão virou política educacional no Brasil. As leis são muito bonitas, nós temos a política nacional da educação especial na perspectiva da educação inclusiva, a LDB que estabelece que todo o aluno deve estudar preferencialmente na rede regular de ensino, mas o que ocorre é que grande parte dessas crianças vão para sala de aula e ficam isoladas. Elas podem ter o acesso à escola, mas o aprendizado não é desenvolvido e a socialização não é incentivada. É o que percebo em conversas com amigas pedagogas com mães de alunos com autismo.

Com relação à estrutura da escola, o que deve ser feito para que os autistas tenham melhores condições de aprendizagem?
É importante reduzir o número de alunos dentro de sala de aula e criar formas de ampliar a comunicação. Muitas escolas, hoje, têm as salas de recurso, onde um profissional trabalha com determinado transtorno, com uma determinada dificuldade de aprendizagem. É importante a relação do professor da sala de recursos com o professor regente da turma, para a criança desenvolver o que está sendo trabalhado em termos de conteúdo e sanar possíveis lacunas. No Rio, há a deliberação nº 24, do Conselho Municipal de Educação, que exige que as creches e escolas mantenham um especialista em educação especial em seu quadro de funcionários. Então, isso também é um avanço, porque o especialista dentro da escola poderia conduzir o professor a um trabalho mais individualizado e adequado.

Que tipo de profissionais as escolas precisariam ter para dar maior suporte aos professores no trabalho com alunos autistas?
A existência do profissional da educação especial, com essa ênfase em autismo, é importante. O mesmo vale para o mediador, que fica o tempo todo com a criança, em sala de aula, além de ficar no recreio, para incentivar a interação com as outras crianças.

Quando o Transtorno do Espectro Autístico começa a ser diagnosticado na infância, é possível que a criança chegue à adolescência com condições semelhantes ou até iguais, de aprendizado em relação aos outros que não desenvolveram este tipo de distúrbio?
Pode, sem dúvida. A partir de uma intervenção que comece no primeiro ano de vida e se prolongue aos cinco anos de idade, pode fazer com que algumas crianças, dependendo do grau do autismo, se tornem adolescentes e adultos em que não se consiga sequer identificar o transtorno. Muitos de nós, há algumas décadas, provavelmente tivemos colegas autistas, mas não sabíamos o que era; só sabíamos que a pessoa era diferente. Conheço casos de autistas que construíram uma família e progrediram em sua profissão.

Como os pais podem também ajudar?
Acho que eles têm que assumir que existe algo diferente, procurar um diagnóstico e ir em busca de tratamento. As terapias são muito importantes. Existem estratégias como a Terapia Comportamental Cognitiva e a Análise aplicada de Comportamento (ABA), que proporcionam  bons resultados. É importante também os pais matricularem seus filhos em uma escola inclusiva. Este é um fator fundamental, pois ela vai ver de perto outros estudantes e aquilo vai gerar estímulos para ela do ponto de vista social, cognitivo e comportamental.

Na perspectiva da inclusão de alunos com deficiência em turmas regulares: o convívio com outras crianças traz benefícios para elas? Quais os principais?
As crianças que não têm distúrbio viram modelo comportamental. Eles criam laços de amizade, as famílias passam a ficar mais unidas porque se veem parecidas, próximas, com os mesmos problemas. Quando a criança nasce com um transtorno, é muito comum a família se desorganizar e se afastar de todos. Então, a escola vem como base para esse relacionamento voltar ao funcionar, para estruturar a família, porque percebe-se que esta família não é a única, e que outras enfrentam as mesmas dificuldades.

A criança autista com o encaminhamento pedagógico adequado tem condições de aprender como qualquer outra criança?
Sim. Muitas têm grande potencial. Algumas podem até ter um pouco mais de dificuldades, não vão entender assuntos tão complexos, por conta da abstração. Mas, de forma geral, ela aprende e pode desenvolver uma vida normal. Vemos muitos alunos com dom para desenho, Matemática e Informática. As crianças autistas aprendem sim e nos proporcionam grandes alegrias!

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