Atividades na escola repensam o consumo

Fonte Site Consciência e Consumo

Consumismo infantil

A Espaço Escola – Coopen BH, de Belo Horizonte, não tem fins lucrativos e éadministrada pelos pais e mães dos alunos sob a forma de uma cooperativa. A filosofia da participação e construção coletivas é percebida também nos projetos pedagógicos que estimulam os alunos a pensar em formas de se cuidar do espaço. Outras ações, como as feiras de trocas, incentivam os alunos a refletir mais, consumir menos e buscar formas mais solidárias e justas de se relacionar com os outros e com o planeta. Quem nos conta sobre algumas das atividades da escola é Adriane de Oliveira e Silva, coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental I, da Espaço Escola – Coopen BH.

 

Por ser uma escola diferente, fruto do cooperativismo, como pais e educadores se unem para trabalhar as questões fundamentais da educação das crianças?

A Espaço Escola – Coopen BH foi criada em 1993. Desde o seu início, a proposta educativa da Coopen buscou estar em sintonia com o movimento social que gerou a escola. Os pais manifestaram o desejo de criar um ambiente educativo capaz de promover uma boa relação do aprendiz com a vida, com o seu mundo social. Os educadores tratavam de criar uma educação em que o conhecimento se tornasse uma experiência de vida, um conjunto de ações orientadas pelo diálogo constante entre os alunos, seus professores e o conhecimento a ser produzido. Pais e educadores tinham em mente uma escola aberta à análise dos fenômenos atuais e sociais. Para isso, tornou-se necessário que a escola se aproximasse da identidade do aluno, favorecendo a construção de sua subjetividade e ao mesmo tempo compartilhasse com eles a ideia de que aprendemos uns com os outros diante dos problemas que a vida nos coloca. Isso significa reconhecer que todos aprendem enquanto participam do processo e que aprendemos melhor aquilo que se aproxima, em alguma instância, de nossos interesses. Vale destacar as variadas intervenções da escola no sentido de valorizar os alunos naquilo que fazem, em suas capacidades de se organizarem para resolver problemas, propor alternativas, discutir um assunto, ter ideias…

Esses princípios desafiam a formulação de práticas que definem o funcionamento cotidiano da escola, coordenando as exigências curriculares socialmente instituídas com as demandas dos sujeitos envolvidos. Uma delas se traduz na construção de um currículo que incorpora as curiosidades dos alunos e as discussões sobre os acontecimentos da atualidade. Assim, na Espaço Escola – Coopen BH, os alunos propõem questões a serem investigadas, argumentam em favor de suas propostas, trabalham em equipes, participam de assembleias de discussões, tomam decisões coletivas diante de demandas de todo o grupo, etc.

Como a escola contribui para formar cidadãos críticos e participativos?

O nosso projeto pedagógico, que vem sendo construído ao longo de 22 anos, tem se consolidado em favor de uma escola cooperativa. O sistema cooperativista reflete a capacidade que certos grupos têm de se organizarem em torno de interesses comuns, de construírem um trabalho baseado na troca e valorização de saberes e ações. Durante todo esse percurso, variadas ações vêm sendo desenvolvidas com o objetivo de sensibilizar os alunos e toda a comunidade (pais e educadores) para  compreenderem a importância da Espaço Escola – Coopen BH enquanto uma experiência social e educativa. Nos últimos anos toda essa reflexão tem se tornado presente em diversos momentos da formação dos nossos alunos. Oficinas de cooperativismo foram criadas, assembleias de discussão e resolução de problemas fazem parte do currículo, projetos institucionais e de trabalho buscam realizar interações com a comunidade e atividades dentro do nosso projeto chamado “Saber cuidar” não param de acontecer.

Como a escola trabalha a questão do consumismo?
Para poder responder de forma adequada a esta pergunta se faz necessário ampliar o conceito de consumismo. Ao falarmos em consumismo, pensamos sempre naquelas atitudes que envolvem a compra demasiada de objetos, de alimentos e de supérfluos. Sempre ligado àquilo que desejamos ter para nos sentirmos como um ser. E é aí que reside toda a nossa proposta de intervenção. Através de múltiplas ações, todas elas ligadas a projetos desenvolvidos coletivamente pelos alunos, buscamos o desenvolvimento de atitudes que sempre implicam em ações que transformam. Nestas ações os alunos sempre conquistam algo, mas esta conquista não é dada, ela é buscada, é construída.  Assim o ter não ocupa um lugar mais importante que o ser. Para ter é necessário ser. Ser sujeito de suas demandas e ações.

 

Como a escola se preparou para introduzir as feiras de trocas?
Há muito tempo já éramos favoráveis à ideia da troca, da colaboração e do fazer junto. Muitas pessoas pensam melhor. Assim, aos poucos, as ideias foram se traduzindo em ações variadas que culminaram na criação de um evento de trocas, chamado por nós de feira de trocas. Assim, no ano de 2008, como mais uma forma de promover uma educação que favorecesse a educação colaborativa, sustentada pelas trocas variadas, desenvolvemos um trabalho em parceria com a Rede de Economia Solidária e algumas frentes de trabalho foram criadas. Uma delas foi a participação da nossa equipe de educadores em momentos de reflexão com setores de organizações solidárias, com enfoques educativos e sociais como, por exemplo, com o educador Tião Rocha, eleito o Empreendedor Social 2007, mentor do CPCD, Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento. O CPCD é uma  organização que promove educação popular e desenvolvimento comunitário com uso de brincadeiras, bibliotecas ambulantes, teatro, música, criação de produtos e cursos.

Qual o balanço que vocês fazem da iniciativa?
Em junho de 2008 demos início ao evento, a feira de trocas, na tentativa de aproximar mais os pais e também os alunos em torno do movimento de trocas de produtos, gerando novos valores como menos desperdício, mais usos utilitários dos objetos e utensílios, menos lixo, menos consumo, revalorização dos produtos e mais economia doméstica. Na primeira feira, os alunos ofereceram produtos em troca de objetos necessários a eles naquele momento. Com a comunidade trocaram variados  produtos, mas especialmente saberes, atitudes e valores. Hoje, seis anos depois, a feira de trocas permanece fazendo parte do nosso currículo. Os alunos do Ensino Fundamental I mensalmente participam da feira em que trocam seus brinquedos e até mesmo suas produções como colares, desenhos e roupas. Avaliamos de forma positiva todo o percurso realizado por nós. Os alunos se mostram solidários com seus colegas, relativizam o valor de seus pertences em função do desejo do seu colega, trocam seus objetos não em função de seu preço mas em função do valor que o objeto tem para eles. Através destas feiras, temos a oportunidade de discutir com nossos alunos sobre o valor daquilo que temos e que por vezes não queremos mais. Refletimos sobre o nosso apego ao que é novo, sobre a compra excessiva de brinquedos e ou objetos. A troca surge como uma possibilidade de enfrentamento ao consumo que tantas vezes marca, negativamente, as relações das crianças como o seu bem estar.

 

Quais experiências pedagógicas você considera mais importantes para o incentivo à mudança da relação ser humano com os outros, com ele mesmo e com o planeta?

Somos uma cooperativa de pais e de filhos também! “Saber cuidar” é o nome dado para um de nossos projetos que reúne ações que buscam criar delicadezas com as pessoas, com a comunidade e com o ambiente da nossa escola. Queremos sim, uma escola mais bonita, com as paredes pintadas de novo. Queremos sim, um jardim florido com vasos também novinhos em “folha”. Queremos sim, uma alimentação gostosa em nossas mesas. Sabemos que tudo isto também gera gastos e investimentos.  Mas que tipo de gastos e que tipo de investimentos? E nesses gastos e investimentos, qual é a real participação dos nossos alunos? O que aprendem com isto? Vamos aos exemplos para entender melhor: a nossa escola precisava ser pintada. Podíamos comprar as tintas ou artisticamente produzir esta tinta em atividade de compreensão, construção de conhecimento e, claro, de economia. Com os alunos da Educação Infantil, a retirada de argila de uma área permitida, a mistura das cores da argila, a transformação em tinta, a pintura dos alunos nos muros da escola: arte produzida no muro. O jardim também precisava ser refeito. Aqui nos propomos a mostrar que conhecimento é aquilo que transforma, reinventa e aumenta. Das letras ao desenho, da investigação à experimentação, da pesquisa ao olhar para as plantas, para os bichinhos do jardim, para o lixo depositado neste jardim. E foi por isso que os alunos do 1º ano decidiram cuidar do jardim da escola  e em seguida plantar novas mudas de Azulzinha, fazendo um jardim suspenso. As flores azulzinhas bem observadas, desenhadas e os vasos de pet pintados serviram de suporte para os desenhos de observação da flor escolhida. Os  caixotes de maçã, transformados em aparadores coloridos, acolheram novas plantas trazidas das casas dos alunos. Uma educação em que os alunos aprendem a cuidar do outro, do ambiente, da comunidade envolvida, iniciando na própria escola uma compreensão de um fazer coletivo e de sociedade. Jardim pronto e agora uma nova tarefa: identificar os nomes de todas as plantas da escola!

Outras ações dos alunos envolvem, além da educação para o consumo, a educação ambiental e a educação nutricional e sempre com as crianças se tornando informantes de temas atuais e sujeitos de suas vivências. Um estudo sobre alimentação saudável, a decisão de aproveitar ao máximo os alimentos das geladeiras das famílias, conhecer as frutas, suas polpas e suas cascas, fazer um boicote aos refrigerantes e criar novos tipos de sanduíches. Analisar o que se tem na geladeira e criar variadas possibilidades de transformação para o lanche. Ao informarem que os quatis do Parque das Mangabeiras não devem ser alimentados pelos visitantes, estão se colocando como educadores ambientais e compreendendo a importância de suas ações e aprendizagens na escola. Ao realizarem uma passeata na Avenida Uruguai, informando a população sobre a existência de um rio debaixo daquele asfalto, estão se preparando para refletir sobre acontecimentos que hoje são questionados e, com certeza, buscando desde cedo, novas soluções para problemas que são de todos nós. Isto tudo gera uma novo conceito sobre o consumo. Não estamos aqui, neste planeta, apenas para consumir ou não consumir, mas para pensar em alternativas que nos dê condições de uma vida mais participativa, saudável e bonita. Uma vida de atitudes!

A Espaço Escola – Coopen BH também participou do Programa Planeta (Rede Minas) – Consumismo infantil – Parte 1 – Parte 2

Obrigada equipe da Espaço Escola – Coopen BH por compartilhar conosco suas experiências.

 

 

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