O que podemos aprender com os “deficientes”

Por José Rodrigo Rodriguez / Terra Magazine

Depois de ler o belo texto de Gregório Duvivier sobre seu irmão, publicado na Folha de S. Paulo faz algumas semanas, “Meu irmão”, eu senti vontade de elaborar a minha experiência com o assunto, os assim chamados “deficientes”.

O tema é delicado e por isso acabou tomando mais tempo do que eu esperava. Demorei muito para terminar este texto, pedi a opinião de várias pessoas e a todas agradeço. Deixo de mencioná-las para não comprometê-las com o resultado final.

Seja como for, arrisco e apresento aqui o resultado de minhas reflexões, mesmo que imperfeito. Para a apreciação e para a crítica geral.

Nossa sociedade considera “deficientes” pessoas dotadas de capacidades consideradas inúteis ou essencialmente sublimes. Os deficientes são “incapazes” ou “deuses”. Explico.

Todos têm capacidades e incapacidades, cada indivíduo. Eu, José Rodrigo Rodriguez por exemplo. Sou muito bom com as palavras e muito ruim com as mãos. Não sirvo para praticamente nenhuma atividade produtiva, mas tenho sorte de viver em uma sociedade em que minha habilidade com as palavras é valorizada.

Por isso tenho conseguido sobreviver dela até agora, sem a ajuda de ninguém. E eu seria capaz de fazer exatamente o que eu faço se não tivesse pernas.

Mas se precisasse plantar e colher eu estaria frito. Se precisasse cuidar de animais, lidar com máquinas…

Sendo muito sincero, se eu fosse obrigado a operar uma simples furadeira todos os dias eu já estaria mal arrumado. Sei que não poderia viver em uma comunidade agrícola alternativa, a menos que eu passasse por um intenso processo de reeducação.

Mas imaginemos que eu fique cego algum dia. Tenho muito medo disso, aliás. Porque eu sei que, a partir desse momento, eu iria precisar der uma série de mecanismos para compensar esta nova incapacidade.  Mecanismos capazes de “devolver” ao menos em parte a capacidade eu que perdera.

Os livros que utilizo em minhas pesquisas – imagino – não são acessíveis para cegos. Seria preciso encontrar uma maneira de torna-los acessíveis. Além disso, eu iria precisar comprar um novo computador, adaptar a minha casa, aprender a andar na rua, conseguir um cão-guia. Em suma, eu iria precisar de muitas coisas e de muita ajuda.

Pergunto: mas que mundo é esse em que sentimos medo de precisar de ajuda? Que mundo é esse que diferencia e diminui quem precisa de ajuda? E considera “normais” apenas as pessoas senhoras de si, completamente independentes?

Cego, provavelmente eu seria menos competitivo no mercado. Dotado das mesmas capacidades intelectuais, eu provavelmente levaria mais tempo para fazer tudo o que faço hoje. Ao menos durante algum tempo. Não sei o que meus chefes iriam achar disso. Não sei o que poderia me acontecer.

Além disso, cego, provavelmente eu causaria piedade em meus amigos, em meus colegas e em mim mesmo. Afinal, eu teria “perdido” alguma coisa, coitadinho de mim. Eu estaria “privado” de algo e seria, portanto, um José Rodrigo menor do que o José Rodrigo anterior. Alguém prejudicado, marcado por uma carência. Subtraído de algo.

Ora, que mundo é esse que olha para qualquer ser humano como “menor”, como um produto com “defeito” de fabricação ou danificado pelo uso? Como alguém privado de alguma coisa – a perfeição? – e não como um ser em si mesmo.

Um ser completo, exatamente como os outros, dotado de capacidades e incapacidades que podem ser mais ou menos desenvolvidas. E utilizadas para determinados fins e não para outros.

Porque sempre estamos procurando nos comparar com alguém, com um padrão, para chegar mais perto da “perfeição” física e intelectual? Que modo de pensar é esse, que vê tudo em termos de padrões, perdas e ganhos, avanços e recuos? Porque não conseguimos pensar e agir levando em conta cada indivíduo em si mesmo?

E que mundo é esse em que tratamos as pessoas no atacado, como se fossem laranjas?

Parte da resposta é: trata-se de um mundo em que a produtividade crescente do trabalho é um valor fundamental. Neste mundo, muitas vezes, não sobra tempo nem dinheiro para prestar atenção naqueles que não acompanham a marcha acelerada do capital. As flores que são amassadas por nossos pés ao longo do caminho.

Pode-se até cuidar delas. Em sociedades capitalistas ricas, pode ser que nada falte aos “deficientes”. Mas ainda assim, simbolicamente, eles estão fora do padrão “normal”. Eles não se encaixam nas engrenagens da produção. Permanecem “menos” e, muitas vezes, são infantilizados. Considerados “café com leite”.

Em mundo em que trabalhássemos menos e mais devagar seria mais fácil acolher a diversidade de habilidades e temperamentos. Haveria tempo para ensinar e aprender, para lidar com características individuais, dificuldades emocionais, problemas que afetam o trabalho.

No mundo de hoje, todos precisam chegar prontos, maduros e a ponto de bala em seus empregos. Qualquer vacilo pode ser fatal. Qualquer erro pode gerar uma demissão. Pois há uma fila de laranjas iguais, esperando para ocupar a mesma função.

A “deficiência” nos ensina a compreender, portanto, porque o capitalismo é desumano. Mas não apenas isso.

Em um mundo em que os cegos fossem normais, ninguém teria tanto medo de ficar cego. Acessibilidade estaria ali, à disposição, desde sempre. Não precisaríamos ter tanto medo de perder o emprego ou de sermos tratados como pessoas subtraídas. Pessoas com um buraco em seu ser.

Em um mundo em que portadores de Down fossem normais, suas capacidades poderiam ser valorizadas em si mesmas. A capacidade de cada um deles, que é peculiar e individual como a capacidade de qualquer pessoa “normal”.

Em um mundo assim, eles não seriam tratados como “anjos”, pessoas “puras” e “ingênuas”. Como seres “abençoados”, cuja função parece ser nos mostrar como nossa vida é “boa”. Pessoas que merecem nossa solidariedade, nossa ajuda, nossa boa vontade. E que nos ajudam a lembrar como devemos valorizar “as coisas simples” e esquecer dos problemas.

De fato, ao invés de ver os “deficientes” como portadores de uma “falta”, pode-se elevá-los, mitificá-los, transformá-los em “representantes” de um modo de viver “angelical”, “puro”, “verdadeiro”, um exemplo para a “maldade” do mundo.

Por isso mesmo, não seria desejável que essas pessoas tivessem uma vida “normal”. Ao contrário, elas deveriam ser protegidas, mantidas longe das “mesquinharias” do mundo em sua perfeição mitificada.

Ou seja, tais pessoas não mereceriam o esforço e o custo – econômico inclusive – de mudar os ambientes e as formas de relacionamento, em suma, de mudar o mundo para que elas se sentissem integradas. Completamente em casa, de acordo com suas capacidades e incapacidades.

Sentir pena, mitificar, idealizar os deficientes; pensar neles como pessoas a quem “falta” alguma coisa ou como pessoas dotadas de uma humanidade supostamente “superior” são duas maneiras de coloca-los em apartado de nosso mundo “normal”.

Valorizar a nossa “perfeição” ou lamentar a nossa “miséria” mantendo-os, na verdade, acima ou abaixo de nós. Mas nunca ao nosso lado.

“Deficientes” ou “anjos”, igualmente “fora” do nosso mundo. E sem voz na condução de seu destino. Afinal, de que serviria ouvir a vontade política de quem é supostamente “incapaz” de gerir sua vida? Ou de alguém que paira “acima” de nós, apartado da pólis?

Agir e pensar assim pode significar reafirmar as normas de uma sociedade que nos coloca como regra e “eles” como “exceção”; nós como “padrão” e eles como “desvio”. E se não ficarmos atentos, pode significar também abrir mão de lutar para construir um mundo em que nenhum indivíduo, jamais, seja um estrangeiro no lugar em que vive.

Cuidar do portador de uma suposta “deficiência” ou proteger alguém que se considera “especial” dos males do mundo, quase sempre, são atitudes motivadas pelo mais profundo amor. Não se trata de colocar isso em questão.

O que eu pretendi discutir aqui são os possíveis efeitos negativos de expressarmos o amor desta maneira. E a sua ligação com a valorização da crescente produtividade do trabalho. Com a necessidade de manter, sempre acelerada, a marcha do desenvolvimento econômico.

Em uma sociedade não capitalista como eu a vejo, não haveria buraco em ser algum. Também não haveria divindades habitando a Terra. Todos seriam plenos, cada um à sua maneira. Em suas capacidades e necessidades.

Sem paternalismo, sem mitificação, sem condescendência.

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