Escrita digital para crianças diferentes, Papo de pai, por Carlos Wagner Jota Guedes

joaRegistrando o que acontece na escola

Peço desculpa àqueles que acompanham esta coluna. Fiquei mais de um mês sem publicar nada, sem dar voz a nada. É que andei sem palavras e sem força o suficiente para escrever. Espero que agora a canoa volte a descer o rio.

 

Como sabem aqueles que acompanham esta coluna o João é entre outras tantas coisas uma criança de quase 7 anos, que está no primeiro ano da educação fundamental. Ele tem o diagnóstico de paralisia cerebral, tem uma dificuldade significativa de perceber a parte esquerda superior de seu corpo. Além desta “paralisia” do lado esquerdo, o João não consegue se locomover sem o auxilio de sua cadeira de rodas. Por uma questão de tônus muscular, principalmente no quadril, ele não consegue se firmar em pé para caminhar.

 

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Uma vez descrito isso – nada mais que um descritor, marca pontos de identificação, mas não identidade – posso adentrar numa questão importante para o desenvolvimento da vida cultural e escolar do João. A questão da escrita.

 

É de conhecimento de todos aqueles que passaram pela escola ou que têm/tiveram filhos lá, que a cada dia mais e mais escrita é produzida. Mais e mais cópias e registros são feitos. Cada vez mais o caderno vai sendo ocupado. Ora, no caso do João isso significa mais do que ter caderno e lápis. Da mesma forma que toda criança sem deficiência a escrita do João é produto do esforço cotidiano no desenho das letras, todavia, sua escrita no papel é mediada pela sua condição física. Mesmo com as adaptações que são feitas com a finalidade de permitir a ele uma postura adequada, manter foco na escrita caminha junto com um esforço físico descomunal. Manter o corpo numa posição de escrita exige dele, controlar seu equilíbrio, posicionar os dois braços sobre a mesa, manter os pés apoiados e a cabeça levantada. Além disso, o papel precisa estar posicionado de tal forma que ele tenha visualização e acesso à parte alta e baixa da folha. Por mais que o João se esforce e olha que nisso ele tem se esforçado muito, sua capacidade de cópia, de registro de textos no papel é pequena e mesmo insuficiente devido a demanda do próprio contexto escolar e desta sociedade feita através da escrita.

 

 

 

Conversas com especialistas, o estudo de material pedagógico e a experiência diária tem mostrado a necessidade de entrar com tecnologia assistiva no processo de escolarização e escrita do João. O que significa isso? De forma simples, a entrada de processadores de texto eletrônicos (word, por exemplo). Para isso é necessário um computador, notebook, tablete que tenha um processador de texto e que esteja configurado para funcionar com acessibilidade.

 

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Nesta foto é possível ver a Central de Facilidade de Acesso do Windows

 

Embora ainda não faça uso desta tecnologia na escola (o treinamento sistemático para o seu uso começou há pouco tempo), estamos dia a dia treinando o uso desta tecnologia. Treinando de forma lúdica, inserindo na rotina sugestões do próprio João.

 

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O treinamento que estamos fazendo nas fotos desta coluna refere-se à escrita do nome de vários objetos da casa. Como funciona? O João sugere o nome de um objeto, ele dita as letras que compõem o nome do objeto, eu copio num quadro as letras que ele diz, faço pequenas intervenções quando necessário, depois ele escreve, usando um teclado “infantil”, a palavra grafada no quadro. Posteriormente imprimimos e colamos o nome das coisas nas coisas que elas representam. Com isso o João tem aumentado gradativamente o número de registros dentro de um tempo determinado. No caso dele (acho que essa é a tendência geral do mundo ocidental), a tendência é a escrita digital ser crescentemente mais executada do que a escrita manual, mas para que ele não tenha a perda desta primeira (quem sabe um dia ele precise passar um bilhete por baixo da porta) também treinamos a escrita manual.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

 

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