Jornalista conta que foi discriminada por se especializar em Síndrome de Down

“Passei por vários processos de exclusão”, diz Claudia Werneck após pautas sobre Down

A função do jornalista está estritamente ligada ao papel de transmitir informação. Como filosofia de vida, Claudia Werneck levou essa premissa a sério e hoje trabalha para um público que conquistou ao longo da carreira. A especialização em tratar temas sensíveis à vida do cidadão foi fundamental para que passasse a ser referência no mercado, atuando em organização não governamental.
Crédito:Paulo Rodrigues
Claudia Werneck conta trajetória e ressalta projeto social
Tudo começou com uma situação inusitada, quando a jornalista não estava preparada para responder uma questão. “Em 1991, eu era chefe de reportagem da revista Pais&Filhos. Um dia, o meu filho mais velho, Diego, na época com sete anos, me pediu para ir visitar o irmãozinho recém-nascido de um colega da escola. Chegando lá, ao me debruçar para conhecer o pequenino dormindo no berço, sua mãe, que eu havia acabado de conhecer, me disse: ‘Você viu? Ele nasceu com Síndrome de Down’”.
“Ao saber que eu era jornalista, ela me pediu ajuda para saber quem era aquele filho que havia chegado. Andaria? Casaria? Aprenderia a ler? Informações sobre síndrome de Down eram raras. Prometi ajudá-la. Naquela noite, não dormi, perplexa e envergonhada com o meu despreparo para lidar com o assunto”, completa. O fato fez com que reascendesse na jovem um “ideal de infância”, quando já compartilhava com seu pai, historiador, o desejo de ser jornalista para disseminar uma causa. “Mas, até então, nenhuma causa havia realmente me mobilizado”, comenta.
Em seguida, a profissional resolver abraçar a luta e escrever sobre o assunto no periódico, uma vez que o problema vivenciado poderia ser semelhante ao ocorrido em outros casos. A repercussão foi tão positiva que, com essa matéria, publicada em agosto de 1992, ela ganhou menção honrosa no I Prêmio Associação Médica Brasileira de Jornalismo sobre Saúde, da Associação Médica Brasileira.  “Antes mesmo do prêmio e cada vez mais impressionada com o que estava descobrindo sobre o que é viver nesse planeta com uma deficiência intelectual, decidi escrever um livro, o “Muito prazer, eu existo”, lançado em 1992, e que se tornou o primeiro livro sobre síndrome de Down para leigos no Brasil, hoje um clássico com várias reedições”.
Crédito:Divulgação
Projeto da jornalista busca inclusão social
Por conta do livro e do objetivo de reapresentar pessoas nascidas com síndrome de Down à sociedade, a jornalista recebeu mais de três mil cartas e centenas de telefonemas de diversos cantos do país pedindo ajuda no tratamento da questão. “Passei a dar palestras pelo Brasil e outros países, além de centenas de entrevista na mídia. Contei imediatamente com o apoio incondicional do minha família: mãe, pai, filho, filha e marido”. No entanto, com o bom trabalho desenvolvido, logo se estendeu alguns problemas que surgem a partir do momento que um projeto ganha notoriedade no contexto em que se está inserido.
Embora não tenha sofrido ameaças, acabou passando “por vários processos de exclusão”. “Mesmo com o primeiro livro sendo um sucesso, eu me sentia excluída e era criticada, pois para o senso comum era estranho ver uma jornalista especializada em síndrome de Down, deficiência, inclusão. Era como se essa especialidade, ao contrário de gastronomia, política ou futebol, não tivesse qualquer sentido ou importância. Para os meus amigos jornalistas, eu deixara de ser jornalista. Para os médicos e educadores, era uma intrusa. Para os profissionais da literatura, eu não fazia literatura.”.
Claudia diz que logo entendeu a problemática. “Quando se defende um assunto sobre o qual o nível de exclusão é muito grande, vivemos a exclusão do que defendemos”, afirma. Mesmo com o viés negativo de colegas que não apreciavam sua causa, ela continuou.

Em 1994, ela passou a escreveu sobre síndrome de Down para crianças, criando os primeiros livros infantis da literatura brasileira com personagens humanos com deficiência, como a Coleção “Meu Amigo Down” e o “Um amigo diferente?”. Segundo a jornalista, as obras passaram a ser retiradas de concursos literários “sob a alegação de que o tema deficiência não era universal, de interesse para a formação de crianças e adolescentes”.

Nada que impede ou desanima Claudia, que ainda hoje enfrenta tal modo de pensar. “Quando escrevo um livro que não é sobre inclusão, como é o caso de “Sonhos do Dia”, publicado pela WVA Editora, em 2011, e que se tornou o primeiro livro para crianças editado em sete formatos acessíveis, enfrento muita resistência de obter espaço de divulgação na área cultural ou de literatura dos meios de comunicação”. Neste caso, prevalece a ideia de que se a obra tem formatos acessíveis – o que é lei no Brasil – ele necessariamente só interessa a crianças com deficiência, e então o seu espaço de divulgação é outro, não na cultura ou literatura.
Aos poucos, a luta pela inclusão social foi deixando de ser apenas uma pauta para se tornar um objetivo de vida. A transição ocorreu a partir de algumas variáveis. “Fui aprendendo sobre a solidão e as necessidades específicas de algumas populações no Brasil, principalmente de pessoas com deficiência de populações de baixa renda. Pude testar os limites da minha profissão. Finalmente eu exercia o jornalismo com o qual sonhara desde a infância e que me mobiliza até hoje”. Para ela, todo jornalista deve ser um “agente de história”, “principalmente das histórias silenciosas, que nunca são relatadas, porque simplesmente não acontecem”.
“Como jornalista, defendo que os mais graves atos de discriminação se dão nos processos de comunicação, independentemente do conteúdo que está sendo transmitido. Todas essas ideias deram origem, em 2002, a organização da sociedade civil ‘Escola de Gente – Comunicação em Inclusão’”. A organização não governamental idealizada por Claudia surgiu em decorrência das ações produzidas tanto por especialistas de comunicação, como por ativistas na inclusão social.
A iniciativa tem como objetivo mostrar que a comunicação é uma área do conhecimento que deve ser mais bem utilizada a favor da integração de grupos em situação de vulnerabilidade na sociedade, especialmente crianças, adolescentes com deficiência. “Concebemos e realizamos projetos que envolvem a formação de jovens Oficineiros da Inclusão, Agentes de Promoção da Acessibilidade, artistas como o grupo Os Inclusos e os Sisos – Teatro de Mobilização pela Diversidade, de especialistas em políticas de comunicação, cultura, juventude, educação – sempre na perspectiva da acessibilidade, da deficiência e da inclusão”.
“Fazemos da comunicação nossa estratégia, dos direitos humanos nosso território, da juventude nosso principal agente de transformação e da infância nosso maior público beneficiário. Tudo o que fazemos é para a garantia dos direitos de todas as crianças. Todos os direitos para todas as crianças”, declara.

Nos onze anos de funcionamento, a Escola de Gente sensibilizou mais de 410 mil pessoas de 17 países das Américas, África, Oceania e Europa em torno do desenvolvimento inclusivo e sustentável. Recentemente, a entidade encerrou mais um projeto premiado que leva teatro inclusivo a comunidades com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro. “O diferencial é que além de apresentarmos um espetáculo acessível, ensinamos como se faz, discutindo conceitos como discriminação, preconceito e inclusão. Mais de 1.600 adolescentes foram sensibilizados pelo projeto, e nosso desejo é que tenha continuidade o ano que vem”.

Todavia, a área cultural sempre foi um dos focos da empreitada. Um dos trabalhos do grupo Os Inclusos e os Sisos – Teatro de Mobilização pela Diversidade, foi idealizado pela filha, a atriz Tatá Werneck, em 2003, “Ela reuniu um grupo de amigos, todos estudantes da UniRio, que passaram a receber formação continuada da Escola de Gente em temas como legislação, Direitos Humanos, acessibilidade, o que lhes deu conteúdo para a criação de esquetes e músicas sobre inclusão”.
Porquanto, todo este planejamento demanda investimentos, custos. Para se manter sustentável, a Escola de Gente possui patrocinadores de projetos sociais e culturais. “O trabalho de captação é árduo, exige muita energia, relacionamento com parceiros, transparência em todos os processos, incluindo as prestações de contas, documentação sistemática e minuciosa de todas as ações”, afirma Claudia, que está com ótimas expectativas com relação aos projetos em andamento em 2014.

* Com supervisão de Vanessa Gonçalves

 

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