O recado de uma jovem para professores de alunos diferentes, por Mariana Silva

Foto-Revista do Professor

A nossa colunista Mariana Silva, jornalista que assina a coluna Ser Diferente é Fashion, fez um artigo muito bacana no qual ela conta a sua vida escolar, os desafios, as dificuldades, a relação com colegas e professores, e deixa um recado para os professores. Vale a pena ler e se inspirar!

 

Revista do Professor 118

Pensando bem

A inclusão transforma e faz crescer

Mariana Silva*

Quando era criança, eu adorava sentar nas primeiras carteiras da sala de aula, porque me sentia importante. Era como se o primeiro lugar na fileira tivesse o milagroso poder de me conceder boas notas. Como eu frequentava a mesma escola pública por vários anos seguidos), os professores já sabiam dessa minha preferência e não se opunham. Mas meu hábito de ficar sempre nas primeiras carteiras ia além da vaidade. Era também uma questão de necessidade.

Nasci cega devido a uma catarata congênita. Só enxerguei o rosto da minha mãe aos 2 anos e, ainda assim, a imagem não era nítida. Tempos depois, desenvolvi ambliopia, também chamada de “síndrome do olho preguiçoso”. Na prática, isso significa que apenas um dos meus olhos, o esquerdo, enxerga.

Além disso, sou portadora de displasia óssea congênita, doença que afeta o desenvolvimento normal dos ossos. Com isso, não posso andar muito ou me esforçar demais. Essas são boas explicações para entender meu amor pelas primeiras carteiras, certo?

Frequentei a escola pública numa época em que as políticas de inclusão para a pessoa com deficiência não eram tão firmes como são hoje. Em uma ocasião, os professores ficaram preocupados em me colocar numa turma regular com receio de eu não acompanhar os outros alunos. Ou, pior, atrapalhar o desenvolvimento dos demais.  Em resumo: não me queriam na sala de aula.

Foi preciso pedir auxílio à Secretaria de Educação de Minas Gerais para que eu fosse plenamente aceita nessa turma. Apesar dos percalços, meus pais fizeram questão que eu estudasse em turmas regulares. E essa “teimosia para o bem” só me fez crescer como pessoa.

Os desafios foram muitos: a letra pequena de um livro, os vários degraus de uma escada, a dificuldade de entender a matéria no quadro, os olhares curiosos das outras crianças para a “menina diferente” e as intermináveis aulas de educação física.

À medida que eu tirava todas essas pedras do caminho, usando-as para construir minha estrada, crescia comigo a vontade de aprender e me superar. Acredito que a fé de meus pais e o estímulo dos professores que me acompanharam foram essenciais para que eu me transformasse na pessoa que sou hoje.

Acho que os educadores que lidam diretamente, e indiretamente, com crianças diferentes, assim como eu fui um dia, têm uma rica matéria prima a ser trabalhada. Crianças com deficiência enxergam o mundo com maior espanto que as outras (às vezes com medo e também curiosidade), já que suas vivências costumam ser únicas e intensas. Mas, nem por isso, são menos interessadas ou capazes. São apenas, diferentes. Elas precisam, portanto, de soluções educacionais específicas. Nada que seja inalcançável.

Hoje sou jornalista, faço um MBA em Direção Criativa de Moda e acabo de passar em um concurso público que dará início à minha carreira profissional. Meus sonhos são grandes, assim como minhas aptidões.

Professor, se um dia entrar pela porta de sua sala de aula um aluno diferente, sorria. Acredite: você pode estar diante de uma pessoa ávida por conhecimento, porém receosa quanto aos obstáculos do mundo. Não tenha medo ou reservas em ensinar esse cidadão. Imagine que será uma aventura muito gratificante educar esse ser especial com capacidades ocultas. Um dia, ele lhe será grato por toda a vida.

Sou um exemplo dessa gratidão e, sei que, como eu, muitos alunos com deficiência se sentem agraciados pelo gesto grandioso de professores que acreditaram em nosso potencial.

 

*Mariana Silva é jornalista e mineira de Belo Horizonte.

silva.cs.mariana@gmail.com

 

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