O polêmico pontapé inicial da Copa do Mundo por um paraplégico, por Tina Descolada

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Sobre minha posição no futebol.

Em resposta aos questionamentos de um amigo e admirador espanhol, sobre o que penso a respeito da invenção do exoesqueleto “Bra-Santos Dumont”, este que dará poder a um rapaz paraplégico de lançar o ponta pé inicial na “pelota” durante a abertura da copa do Mundo em São Paulo, no dia 12 próximo.

“El saque de honor del primer partido de fútbol del mundial lo hará una persona parapléjica,.., muito curioso!!!!, saldrá un cadeirante que se levantará de la silla porque lleva una estructura ruborizada controlada por el cerebro y le pegará a la pelota…., siso lo verán tudas las crianzas que voce ajuda; pero es muy futurista y

muy poca gente tiene a su alcance conseguir ese artefacto electrónico guiado por el cerebro,…, tú qué opinas de esa presentación ante el mundo…., se puede considerar inclusiva .. o no inclusiva… ¿?, es para reflexionar…., puede llegar el mensaje para la gente cadeirante, que sólo se puede jugar al fútbol si “estás de pie, levantado”…, no lo sé, se me acaba de ocurrir,…, ¿qué opinan los cadeirantes de esos inventos para ponerse de pie de esa forma como si fuera un robot.¿?.”

Ao querido admirador espanhol, o que tenho a dizer, em primeiro lugar é que, se eu fosse jogar futebol, a minha posição seria sentada, pois teria mais habilidade e segurança para me deslocar no campo/ quadra. Tenho essa condição desde que

me entendo por gente; reconheço minhas limitações; sinto-me confortável nela e, só assim, poderia dar o meu melhor.

Perguntei a um amiguinho cadeirante de 11 anos, se ele gostaria de estar no lugar do rapaz que será comandado pelo robô, sabem o que ele me disse?

– “Não, porque eu jogo futebol na cadeira e me sinto feliz assim! A gente precisa se sentir bem do jeito que a gente é.”

Uma coisa bacana são as pesquisas e a mídia nos dar visibilidade, mas concordo literalmente com a minha amiga Laura Martins :

“Muito legal!
Por outro lado, não podemos nos encantar com os robôs e esquecer que o dia a dia

tem exigido de nós, pessoas com deficiência, esforços descomunais para “andar” nas cidades, por falta de calçadas decentes, rebaixamentos, transporte acessível e até mesmo um simples elevador!
Não tenho nada contra a tecnologia, é claro. Mas ela não me seduz a ponto de me fazer esquecer que meu direito de ir e vir é constantemente desrespeitado.”

Querido admirador espanhol no fundo a maioria de nós sonha em andar com as próprias pernas e nossos desejos potencializam quando enfrentamos as dificuldades no nosso cotidiano.

 

* Por Marta Alencar, psicóloga clínica, fotógrafa e empreendedora social –

http://www.altaestima.org – Idealizou a personagem Tina descolada – http://www.tinadescolada.com Assina a coluna: Tina descolada – agente de inclusão, publicada às terças feiras em http:// http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade da colunista.

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