As leis incluem ou não? Um papo sério com Mariana Silva

Foto-Revista do ProfessorOutro ângulo para as leis de inclusão destinadas às pessoas com deficiência

Por Mariana Silva, colunista de Tudo Bem Ser Diferente, Coluna Ser Diferente é fashion

Sobre as leis de inclusão para pessoas com deficiência, digo apenas uma coisa: elas não incluem ninguém. Apenas destacam com perfeição as pessoas que pretendiam ajudar. Leitor, nada de ficar espantado, achando que sou uma pessoa reacionária, tacanha, “de direita” que não se importa com as minorias e acha que todas devem continuar por baixo. Coisa nenhuma! Caso não saiba, esta que vos escreve faz parte da minoria, já que é dotada de deficiências físicas e visuais congênitas.

Você está lendo a opinião de quem tem grande entendimento na arte de ser diferente em um mundo normal – ou anormal, dependendo do ângulo de observação -, portanto, sabe das coisas. É verdade que não vou citar grandes articulistas ou pensadores renomados para embasar minha opinião. São minhas vivências meus pilares. Então, vamos começar tudo pela época da escola.

Quando era criança, não queriam que eu frequentasse a escola regular por pensarem que não daria conta de acompanhar a turma. Ou, pior, achavam que eu atrapalharia os outros. Então, foi preciso chamar os superiores para me incluírem na sala de aula, como manda o figurino. Digo isso porque nessa época ainda não existia uma lei específica que se aplicasse ao caso.

Mas, ao invés de benção, esse ato benevolente foi uma maldição. Por muito tempo fui considera “a coleguinha diferente”. Fiquei marcada, como se andasse por aí usando um colete verde fluorescente. Todos me viam e, ao invés de ser incluída, como era o objetivo, acabei sendo destacada na multidão. E vocês acreditam que, mesmo tão famosa, ninguém me pediu um autógrafo?

Tempos depois, resolvi fazer faculdade. Muitos ficaram boquiabertos achando que a missão não seria cumprida com êxito. Mas, para minha felicidade, foi. Antes de começar os estudos, concorri a uma bolsa do PROUNI que me beneficiou com a gratuidade do curso. Maravilhoso, porém não muito. Digo isso porque a bolsa só foi garantida quando a banca descobriu minhas deficiências e pediu um laudo comprovatório. O fato de eu ter quase fechado o ENEM, requisito para a bolsa, com mais de 80 % de aproveitamento, foi rebaixado a segunda categoria. O importante mesmo era minha deficiência e ponto. Na faculdade alguns me conheciam como “a que ganhou a bolsa de deficiente”. Novamente, me destacaram, colocaram o colete verde fluorescente e abriram um cercadinho para eu ficar saltitante e serelepe dentro dele

Recentemente, passei em um concurso. Em sétimo lugar geral. Me inscrevi nas vagas destinadas às pessoas com deficiência, é verdade. Por razões pessoais, precisava que isso desse certo, então, quis me garantir. Mas, no frigir dos ovos, nem precisava ter esse trabalho já que, como disse, passei em sétimo lugar em meio às pessoas que disputavam em ampla concorrência.

Baseada em minhas outras experiências, ouso apostar uma caixa de bombons que, se um dia eu contar para alguém que fiz a prova concorrendo nas vagas especiais, o fato de eu ter passado em sétimo lugar geral seria esquecido. Ficaria apenas a informação das vagas para pessoas com deficiência. A impressão é que méritos de pessoas como eu acabam onde começam as leis de inclusão, ainda que, em muitos casos, essas vitórias vêm de muito trabalho duro e esforço. São conquistas dignas, reais e legítimas.

Por isso digo que as leis de inclusão para as pessoas com deficiência nunca me incluíram realmente como não incluem a maioria de nós. Apenas destacam, deixando claro para os menos informados que sou diferente dos outros. Parecem ser apenas favores sociais, que negam igualdade com os demais. É como se fossemos inferiores, com menor capacidade, menos importantes. É como se, na corrida da vida, nos deixassem começar primeiro.

Não vou apontar uma solução para o problema porque não sei o que resolveria. Uma coisa interessante pode ser a educação. Ato que resolve muita coisa. Essa mudança de pensamento deveria nascer na infância. Não sei como, mas acredito que esse indício é uma grande luz no caminho.

Não fique triste achando que perdeu seu tempo lendo um texto cuja conclusão não foi satisfatória, já que não existe. Mas, leve minhas palavras e vivências como opinião. Pensar fora da caixa só faz bem. Vai que um dia alguém encontra uma solução para este impasse? Vamos ficar na torcida. Enquanto isso, sigo alegremente exibindo meu colete verde fluorescente por aí…

 

*Mariana Silva (Idealizadora do Blog http://naoesobremoda.wordpress.com, é colaboradora de www.tudobemserdiferente.com. Jornalista, 24 anos, nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais. Para ela, moda é uma futilidade necessária e um fenômeno sociológico interessantíssimo; “o legal é quando fazemos a moda trabalhar a nosso favor, ficar dependente dela não faz bem”). Tem displasia Óssea, síndrome que afeta o crescimento e a resistência dos ossos de todo o corpo. Escreve Ser diferente é fashion para www.tudobemserdiferente.com toda quinta-feira. 

 

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