Professora relata experiência em sala de aula com crianças com deficiência

Utopia possível!

Mara Albregard Cassas conta algumas das estratégias desenvolvidas para inclusão de alunos com deficiência.

Fonte Rede Saci

Mara Rosana Albregard Cassas é professora do Colégio Santo Américo, em São Paulo. Ela preencheu nosso questionário, para coleta de experiências inclusivas na educação, contando um pouco do trabalho desenvolvido e sua trajetória com alunos com necessidades educativas especiais.

Mara é pedagoga e não possui especialização na área da deficiência. Suas informações e reflexões nos mostram que a dedicação, o compromisso e a postura de educadora, que ousa e analisa seus erros e acertos, é um caminho valioso para colocar a inclusão em prática.

Esperamos que mais professores inspirem-se no exemplo de Mara e compartilhem essas informações conosco.

Se você quiser compartilhar informações sobre suas experiências de ensino inclusivo, envie um e-mail para Ana Beatriz e nós enviaremos nosso questionário para preenchimento.

Dados da experiência

As aulas foram desenvolvidas com alunos da turma de ensino fundamental I, com idades que vão de 7 a 10 anos e deficiência mental, física e auditiva.

Relato da experiência de Mara

Trabalhei em 1978 com uma criança deficiente auditiva na Rede Municipal de Ensino de São Paulo, numa classe com 35 alunos. A aluna tinha 8 anos e estava em processo de alfabetização. Utilizava aparelho, porém, mesmo assim, possuía ainda 80% de prejuízo auditivo.

Em 1992 trabalhei com um aluno deficiente físico em uma classe regular na Rede Municipal de Ensino, que possuía 28 alunos com idades aproximadas de 7 anos. A criança utilizava muletas para se locomover e tinha a capacidade motora global comprometida.

Nesta turma todos os alunos apresentavam dificuldades de aprendizagem: problemas emocionais, psiquiátricos, subnutrição, abandono, violência caseira, multi-repetência etc. Meu trabalho constituiu-se em investigar o conhecimento primitivo de cada aluno para a partir daí elaborar o planejamento atendendo cada um deles de acordo com suas condições de aprendizagem. Trabalhei com esta classe por dois anos.

Com deficiente mental trabalhei na APAE de 1994 a 1995. A classe era composta por doze crianças na faixa de 11 a 15 anos, que estavam no processo de alfabetização. Havia, além de crianças portadoras de síndrome de Down, outras síndromes diagnosticadas ou ainda pouco conhecidas, como Síndrome de Sotos, além de problemas psiquiátricos.

No ano de 2003 trabalhei com a inclusão de um aluno portador de Síndrome de Down, com idade de 9 anos no Colégio Santo Américo.

Como Mara se preparou para receber alunos com deficiência

Mara buscou leituras na área, pesquisas na internet, conversas com profissionais da área da deficiência, com a família da criança, orientações com a coordenação pedagógica da escola, além das reuniões pedagógicas que ela descreve abaixo:

“Em 2002 a escola promovia reuniões periódicas com os professores e as psicólogas do Setor de Psicologia para discutir temas relativos à inclusão.
Nesse ano trabalhei com alunos de 2ª série onde havia um relativo número de crianças com dificuldades específicas de aprendizagem. Foi diante dessa diversidade de características de alunos que comecei a repensar e questionar o meu trabalho. Como atender a todos em geral e a cada um particularmente.

Junto com a equipe de apoio da escola, Coordenação Pedagógica e Setor de Psicologia, pensei num trabalho para atender essas crianças. Tive oportunidade de através de um registro diário e as conversas com a Coordenação, repensar o meu dia-a-dia. Pude reformular o planejamento, podendo assim atender esses alunos.

O meu trabalho foi feito com o objetivo de proporcionar atendimento individualizado, sempre que possível, para que cada uma dessas crianças pudesse ter um desenvolvimento pleno dentro das suas possibilidades. Havia crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e alunos com problemas de Processamento Auditivo. É o caso de um aluno que apresentava alguns comportamentos diferenciados do padrão esperado.Tendo em vista a minha compreensão da sua necessidade de se movimentar continuamente pela classe, eu permitia que ele tivesse algumas atitudes, mesmo sabendo que eram inadequadas como bater mãos e pés, andar pela classe, chutar as paredes e sair ocasionalmente para o pátio. Pois, após liberar essa energia o aluno se acalmava e conseguia se concentrar o suficiente para realizar as atividades pedagógicas propostas. Durante esse processo observei que esse aluno apresentou um avanço pedagógico e permitiu que ele superasse a fase crítica de seu problema.

Havia na classe, também, vários alunos com dificuldades fonoaudiológicas, com questões emocionais e psiquiátricas que recebiam atendimento de especialistas.

Devido ao meu trabalho com essa diversidade de dificuldades encontradas na classe a escola propôs que eu trabalhasse com a inclusão de um aluno portador de Síndrome de Down na segunda série do ano de 2003.”

No ano de 2003, Mara fez o curso de Expansão Cultural: “Dialogando com a deficiência: exercitando o universo. Como trabalhar estrategicamente com a inclusão em sala de aula”, no Sedes Sapientiae.

Assistiu às aulas da Disciplina de Inclusão ministrada pela Prof Maria Tereza Mantoan no Curso de Graduação da Pedagogia na Unicamp.

Tinha reuniões freqüentes com a Coordenação Pedagógica, com a OEAP (Orientação de Ensino Acadêmico Personalizado) e o setor de Psicologia da escola.

O que Mara fez para que o conteúdo fosse mais bem aproveitado por todos os alunos, especialmente aqueles com deficiência

“O aluno portador de Síndrome de Down em classe completou nove anos no início de 2003 e cursou a primeira série numa escola regular. Sua classe era pequena, tinha apenas 10 alunos e duas professoras. Ele encontrava-se em processo de alfabetização, na fase alfabética e conhecia algarismos até 15 e contava até 10 respeitando a seqüência.

Ao realizar o planejamento eu ia, sempre que possível, em busca de uma estratégia que possibilitasse o envolvimento de todos os alunos e na hora de fazer os registros pensava na melhor maneira de atender o aluno em processo de inclusão.”

Alguns trabalhos realizados:

1 – Numa aula da disciplina de Português havia uma atividade que deveria ser realizada no livro didático. O objetivo era estudar um novo gênero textual que é Tirinhas em quadrinhos e suas características tais como o uso de balões para indicar diálogos, fala de narrador, expressões dos personagens etc. Para que houvesse maior envolvimento do aluno, eu trouxe para a classe uma cestinha com vários gibis da Turma da Mônica, cujos personagens faziam parte da tirinha do livro. Proporcionei um tempo para que todas as crianças escolhessem um gibi, fossem para o fundo da classe, se espalhassem pelo chão e se divertissem com sua leitura. Esperei que o aluno em questão escolhesse uma delas, visse sozinho a história e depois pedisse que alguém lhe contasse. Em seguida alguns contaram suas histórias, inclusive ele e depois retornamos às carteiras para fazer as atividades propostas pelo livro. Oralmente fui fazendo adaptações das atividades do livro, solicitei que as respostas fossem dadas de acordo com as histórias dos gibis eles haviam lido no gibi. Dessa forma, foi mais interessante para o aluno em processo de inclusão, que se envolveu e deu respostas adequadas levando-se em conta suas dificuldades, e para toda classe que ficou mais interessada. A leitura dos gibis proporcionou um envolvimento maior.

Os objetivos propostos para essa atividade foram atingidos, o aluno participou, envolveu-se e trabalhou com o conteúdo apresentado. Interagiu com todos os seus colegas, pois todos leram e compartilharam suas histórias e conteúdos com os demais.

2 – Numa outra atividade, também de Português, o objetivo era que os alunos trabalhassem com outro gênero textual: cartas. O assunto iniciava-se pela necessidade de uso de selo para o envio de cartas. O planejamento tinha por base o uso do livro didático. Também, para maior envolvimento do aluno em questão, solicitei que as crianças trouxessem objetos de coleções de casa. Os alunos trouxeram várias coleções tais como papel de carta, tampinhas de Coca-Cola, cartões de telefone, mas o mais freqüente foi mesmo coleção de selos. O aluno também trouxe sua coleção de casa. Utilizei um selo que um dos alunos trouxera e o imprimi fazendo parte de uma das atividades para a classe trabalhar. O envolvimento de todos foi maior e o de dele foi total, pois o conteúdo ficou mais interessante.

3 – As aulas de Ciências eram planejadas de uma forma que houvesse um maior envolvimento dos alunos como um todo. Eu apresentava os conteúdos planejando várias estratégias onde pudesse contemplar as diferentes capacidades dos alunos. Apresentava textos apenas no final do planejamento para sistematizar o que foi trabalhado durante o processo. Havia experimentos no laboratório, na classe ou no pátio, jogos e também trabalhos em grupo onde os alunos deveriam fazer cartazes colocando pesquisas, gravuras ou fazendo desenhos.

Dessa forma todos contribuíram de acordo com suas capacidades naquilo que tinham mais facilidade. Uns escreviam, outros desenhavam e outros pintavam ou recortavam. Os conteúdos, sempre que possível eram trabalhados utilizando diferentes estratégias para que envolvessem a todos os alunos, então esses conteúdos eram apresentados de forma lúdica e acadêmica para a sistematização.

Um dos temas trabalhados em Ciências foi sobre o Meio Ambiente. Além de textos apresentei filmes, excursão e aula no laboratório. Montei um jogo com dados e os alunos faziam o percurso onde todos tinham que caminhar de acordo com o número obtido nos dados e as regras a cada número.

4 – Esse mesmo tipo de jogo foi utilizado no desenvolvimento do planejamento de Estudos Sociais para o estudo das Regras de Trânsito.

Na sala de aula

Mara utilizou também alguns materiais como jogos, oficinas de brinquedos de sucata, vídeos e filmes. Nos trabalhos em grupo havia necessidade de cartolinas, tesoura, lápis de cor, guache e pincéis.

Quanto às mudanças na disposição da sala de aula, Mara nos conta que: “Não houve necessidade de se mudar a disposição das carteiras, pois sempre achei importante dispor a classe em duplas ou trios para que todos trabalhassem juntos. Essas duplas iam sendo alteradas com uma certa periodicidade para que no final do ano todos os alunos tivessem trabalhado com todos os seus colegas da classe. Sempre que possível também planejo tarefas para serem realizadas em grupo. Esses grupos também não são fixos.

O objetivo era fazer com que todos os alunos aprendessem trabalhar com todos os colegas respeitando as características individuais de cada um, aceitando-os como são.”

Os objetivos alcançados

Mara considera que alcançou os objetivos desejados, explicando que “Como tive a oportunidade de fazer alterações no planejamento já existente tendo como objetivo atender a todos dessa forma foi possível atingir os objetivos propostos.”

Ela destaca:

No início do ano o aluno em fase de inclusão:
– Circulava muito pela escola, ficava pouco em sala de aula;
– Preferia brincar a estudar;
– Cansava-se facilmente das atividades da classe;
– Em classe circulava muito, mexia com todos os colegas e era resistente às regras;
– Não gostava de trabalhar em grupo;
– Usava somente o preto nos desenhos;
– Encontrava-se na fase alfabética;
– Não entendia a mensagem das frases;
– Elaborava pequenas frases orais;
– Não conseguia registrar essas frases;
– Invertia letras e números;
– Necessitava de muito espaço para a escrita;
– Possuía traçado irregular;
– Necessitava contar um a um. Voltava sempre ao início da contagem;
– Reconhecia e relacionava quantidade até 10;
– Realizava pequenas somas;
– Não tinha paciência para o recorte, pois era muito difícil;
– Não havia formas no seu desenho;
– Dependente de adulto para realizar tarefas;
– Maior facilidade para soma do que subtração.

O aluno terminou o ano:

– Sempre presente em todas as atividades do grupo dentro e fora da classe;
– Realizava todas as atividades sem a ajuda do adulto e não circulava mais entre os colegas. Ele dizia que “Se eu não fizer, como vou aprender?”;
– Aceitava trabalhar em grupo;
– Aceitava refazer tarefas quando não estavam bem feitas;
– Menos resistente às regras;
– Era escolhido para trabalhos em grupos;
– Lia com maior desenvoltura;
– Elaborava frases orais e as registrava;
– Ainda apresenta inversões de letras e números;
– Apresentava certa dificuldade em escrever palavras iniciadas com vogais;
– Gostava de atividades com recorte;
– Já apresentava formas nos desenhos;
– Reconhecia numeral até 70 e já tinha conhecimento da ordem de grandeza 92, 160, 200;
– Ainda apresentava maior dificuldade para subtração;
– Já conseguia elaborar problemas oralmente;
– Fazia desenhos com cores variadas.

Benefícios para os outros alunos
Ela considera que as mudanças realizadas beneficiaram todos os alunos, inclusive aqueles que não tinham alguma deficiência

Outras observações da Educadora Mara Albregard Cassas

Trabalhar a inclusão de um aluno portador de necessidades especiais dentro de uma classe regular foi, para mim um grande desafio. As dúvidas iniciais foram: Será que vou conseguir? Como devo fazer para integrá-lo ao grupo? Como trazê-lo para dentro da sala de aula e aceitar conviver com colegas desconhecidos, conhecer a escola, o espaço, as pessoas, os limites…? Será que vou incluí-lo ou integrá-lo?
Como vou trabalhar os conteúdos com ele e os demais? Como deverão ser suas atividades?
A única certeza que eu tinha é que eu acreditava na inclusão e que esta deveria acontecer.

Após os momentos iniciais que foi trazê-lo para dentro da sala de aula o maior desafio foi adequar o conteúdo programado para a série a uma forma possível para que ele também trabalhasse. Percebi que o contexto era possível de ser discutido por todos juntos, mas as tarefas apresentavam inadequações às suas possibilidades de entendimento e realização, pois ele se encontrava em fase diferenciada no processo de alfabetização. Então trabalhava o conteúdo com todos, mas eu preparava outras tarefas para ele que estivessem de acordo com o que ele podia realizar. Houve um momento que ele disse: “Sou diferente e posso fazer o que quero”. Nesse momento, resolvi que ele realizaria as mesmas tarefas que todos, mas respeitando as particularidades da sua produção.
Com isso percebi que podia preparar atividades para todos, mas que pudesse contemplar também o aluno incluído.

Uma grande preocupação que tive durante o meu trabalho foi atender todos os alunos, ao mesmo tempo em que deveria atender cada um respeitando suas características individuais. E mais, dar a devida atenção ao aluno em processo de inclusão.

Aprendi que deveria priorizar as minhas ações dando ora atendimento a alguns alunos que necessitavam mais, ora deveria atender os demais alunos. E em outros momentos ainda deveria atender ao aluno em processo de inclusão. Portanto, os alunos não seriam atendidos em todos os momentos, de forma plena, mas receberiam atenção.

Durante esse processo de inclusão eu tive momentos de muita angústia. Trabalhar com inclusão fez com que eu mudasse todos os meus paradigmas e os recompusesse de uma nova forma, pois eu percebia que, às vezes as minhas estratégias, que sempre deram resultado, agora não mais serviam e eu tinha que imediatamente encontrar uma outra forma para resolver aquele determinado fato.
Aprendi a trabalhar tendo um Acompanhante Terapêutico em classe. Foi um trabalho de grande valia para poder entender o processo do aluno em questão.
Foi desafiante, angustiante, porém foi uma experiência muito rica!

Um fato a ser destacado é que o aluno terminou o ano fazendo parte plenamente do grupo e tendo o respeito de todos. Os colegas não mais o tratavam com condescendência, pois cobravam dele as atitudes adequadas e a realização das tarefas. Conseguiam, como ninguém, quebrar algumas de suas resistências nas atividades diárias. Com firmeza e carinho. Todos estão sempre prontos a auxiliar uns aos outros, não só a ele em suas dificuldades. Agem com tranqüilidade nas horas de pedir e dar ajuda, não se sentem constrangidos em solicitar ajuda. É uma classe muito coesa.

Vale destacar o ganho dessa classe vivendo a experiência de um processo de inclusão. É uma classe que crescerá sem qualquer preconceito, respeitando toda e qualquer diferença.

Pairou durante o ano o seguinte questionamento:
Houve prejuízo pedagógico para os demais alunos?
Posso dizer, com certeza, que, se houve, foi tão pouco que se torna imperceptível. A classe teve o mesmo rendimento das demais salas de 2ª série. Isto ficou claro de acordo com um levantamento feito pela Orientadora de Estudos, com base na análise das avaliações de todos os alunos da série. A média das notas foi semelhante em todas as classes.
O ganho do grupo é que fez a diferença. Esses alunos desenvolveram um senso de cidadania que muito poucas pessoas têm hoje. E é nas mãos dessa geração que estará o início de uma sociedade mais equilibrada e preocupada com o desenvolvimento pleno dos indivíduos dentro de suas capacidades e não sendo tão competitiva.

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