Um guia para reunião entre pais e professores? Por Sônia Pessoa

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Costumo brincar com as minhas amigas que sou recordista de participação em reuniões individuais em escolas infantis. Há sempre um motivo para uma reunião, pedida por mim ou pedida pela escola. A pauta é bastante variada. No início costuma ser sobre os desafios a serem vencidos, as dificuldades, fatos que já ocorreram, necessidades específicas, enfim, o que poderemos fazer para que dê tudo certo. No meio começam a pipocar fatos aqui e ali, dificuldades acolá, e eu chego sempre muito animada nas reuniões mas nem sempre saio com a mesma sensação.

Comentando com uma amiga sobre essas inquietações ela me sugeriu escrever um guia (ah, quanta pretensão!) para reuniões escolares, principalmente aqueles de filhos com necessidades específicas. Nem guia, nem receita, talvez algumas impressões que são minhas, muito minhas, sobre a condução de reuniões – tenho experiência em quatro escolas, três particulares no Brasil e uma pública em Paris. Achei melhor listar sugestões para quem quiser poder opinar, contribuir, criticar, ampliar, enfim…

Essa postagem não pretende criticar nenhuma escola nem profissional, ela é uma impressão de que podemos caminhar juntos, sempre, sempre… um pensamento em voz alta para ouvir outras opiniões também.

E a gente sempre lembra, cada experiência é única e contribui para outras. Mas generalizar é sempre complicado… Por isso, de novo, aqui estão as minhas vivências…

1 – O início da reunião deve ser sempre com uma avaliação pedagógica e não comportamental

2 – A valorização dos pontos positivos pela equipe pedagógica proporciona à família compreender que o principal é realmente o que a criança está apreendendo

3 – Há sempre algo positivo e isso precisa ser valorizado na reunião, nenhuma família sobrevive a reuniões nas quais os pontos negativos são os únicos a serem ressaltados

4 – Perguntar à família como a criança se comporta em casa é fundamental para entender os motivos de determinados comportamentos na escola e muitas vezes são completamente diferentes os comportamentos nos dois ambientes

5 – A partir da avaliação da família a escola deve expor o problema e fazer uma avaliação sobre a situação

6 – Contextualizar o aluno na sala é fundamental: nenhum aluno age sozinho ou é um ‘problema’ sozinho. Não se trata de nomear colegas ou de comparar, mas trata-se de entender o comportamento geral da sala para compreender como e porque aquele aluno age daquela maneira

8 – É fundamental que a escola proponha soluções e não apenas apresente o problema

9 – É fundamental que a escola apresente a proposta e dialogue com a família: soluções prontas, na maioria das vezes, não funcionam. Tanto é assim que os pais costumam ser chamados para ajudar

10 – As necessidades específicas do aluno não podem e não devem ser separadas do seu comportamento. O aluno é um ser único, a avaliação deve ser holística e não descolada

11 – Tenho a impressão que as escolas evitam pensar nas necessidades específicas como questões reais, que interferem no todo e até evitam falar sobre elas quando o tema é comportamento

12 – Nem toda questão comportamental está relacionada à falta de limite, que é uma avaliação do senso comum. Há muitos outros fatores como baixa autoestima, por exemplo, o tratamento recebido dos colegas, a dificuldade para brincar e, consequentemente, para participar de muitas atividades coletivas

13 – Toda medicação, seja para convulsão, para ansiedade, para déficit de atenção, para autismo, enfim, tem consequências para o aluno e para a sua vida como um todo. Basta ver o tamanho das bulas desses remédios. Isso não pode ser desconsiderado

14 – A sugestão de aulas extra-classe e terapias deve ser feita com muita cautela e o lembrete é o de sempre: o que funciona para um não funciona para todos e o que funciona para a maioria pode não funcionar para um

15 – Muitas vezes é preciso ‘trabalhar’ um aluno individualmente mas é preciso estar atento porque aquele aluno pode estar ‘dando o grito’, chamando a atenção, para uma situação da turma que precisa ser trabalhada

16 – Precisamos ter muito cuidado para não tentar ficar ‘adequando’ a criança com necessidades específicas ao que se espera que seja um padrão ou um modelo de aluno – cada um é cada um

17 – Incluir não é colocar a criança com necessidade específica em um ambiente, sala de aula ou atividade e adaptá-la para que ela siga o fluxo padrão; incluir é permitir a adaptação do ambiente, sala, atividade para que a criança se sinta bem

18 – Desmistificar a diferença é fundamental. Mas veja, apontar o dedo em direção a um aluno e pedir aos demais para ter paciência com ele porque é diferente não é uma boa ideia. A diferença, a deficiência, a necessidade específica, tudo isso está aí, em todo lugar. É preciso trabalhar a temática em todas as turmas de todas as escolas, isso é buscar uma sociedade mais amigável em relação ao outro

19 – A escola precisa ficar atenta ao comportamento dos colegas em relação à criança. Dizer que todos o tratam como um colega como outro qualquer é planificar demais a avaliação. É preciso identificar o comportamento dos demais e trabalhar essa questão coletivamente mas também individualmente quando for necessário

20 – Os pais precisam estar abertos para ouvir e para trabalhar em conjunto com a escola, dando todo o suporte e informação que ela precisa

21 – O suposto desinteresse de um aluno por alguma disciplina ou atividade específica pode ter mais implicações do que o simplesmente não gostar ou não querer fazer

22 – O professor é o vínculo maior do aluno com a escola – se ele confia e se sente apoiado, certamente terá mais facilidade para vencer os desafios

23 – Ser ajudado não é um privilégio que os alunos com necessidades específicas devem ter – ajudar o colega é valor importante a ser trabalhado em toda a turma, uns com os outros, é para levar para vida toda

24 – Assim como os combinados coletivos, os combinados individuais devem ser um forte aliado entre os professores e os alunos com necessidades específicas e precisam ser reforçados com a família durante as reuniões. A família também deve fazer os mesmos combinados em casa com os filhos

25 – É bom que a escola saiba que um aluno com necessidade específica provavelmente já ouviu muita coisa desagradável sobre a sua situação; já foi ‘barrado’ em muita escola ou muito curso livre, já percebeu muitos olhares desconfiados, já passou mais tempo em consultórios de terapias do que em brincadeiras com os colegas…

26 – Uma família que sai de uma reunião onde ouviu quase só pontos negativos sobre o filho terá mais dificuldades para ajudá-lo em um curto prazo. Provavelmente ficará abalada e vai demorar um pouco para se recuperar. O importante é que haja transparência, com cuidado…

27 – Evite tom acusatório: fulano é assim, fulano é assado, fulano faz isso, fulano faz aquilo… prefira um relato objetivo, que prime pelas informações e com uma avaliação na sequência, mas tenha cuidado com a adjetivação e a categorização da criança

28 – Lembre-se que o que está em jogo é o bem-estar da criança e isso interessa à família, à escola e à própria criança

29 – …

30 – …

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