Dos problemas cotidianos, dos transtornos mentais, e a oportunidade de se despir, por Sônia Pessoa

Logo para perfil no facePor Sônia Pessoa

O tema da medicação de crianças é recorrente para mim, afinal, os leitores do blog sempre nos enviam muitas dúvidas e pedidos para tratar o assunto. Além disso, lido diretamente com uma criança que é amável em casa e, em sua relação com adultos, consegue se manter um pouco mais concentrada e um pouco mais focada do que em ambientes onde há muitas crianças e muitos estímulos. Obviamente a escola é o maior palco onde a inquietação aparece em sala de aula, com sucessivas tentativas de se levantar da cadeira, de acompanhar o que o colega faz, de chamar a professora a todo momento.

Diante de situações como essas é muito comum surgirem opiniões de todo o tipo, com muitas avaliações e receitas a serem seguidas para que a situação ‘melhore’, afinal, uma criança ‘inquieta’ demais em sala traz muitos desafios mesmo, é uma saia justa para o professor (muitas vezes ele fica sem saber o que fazer, como agir, o que poderia funcionar, muitas vezes tenta quase tudo e não vê resultado), e pode significar também motivo de rejeição pelos colegas. Para além do que os outros pensam, é importante pensar no que a própria criança está sentindo para que essa inquietação ocorra tantas vezes e traga tantas consequências, como ser chamada a atenção quase a todo momento (imagine viver assim!), ser ‘censurado’ pelos colegas ou até evitado.

Dia desses ouvi de um neurocientista que é importante a gente conhecer a situação bem a fundo, afinal, nada adianta medicar por um período ou colocar uma assistente em uma sala de aula, por exemplo, com a missão de ‘segurar a criança na cadeira’ ou, como ouvi outro dia de uma outra pessoa, ‘colocar um colete pesado para força-la a ficar quieto’ (confesso minha surpresa diante da sugestão!, os especialistas que me perdoem! sei que existe e que pode ser usado em alguns casos mas não consigo esconder o meu susto e um certo pavor!), se a mente não estiver em paz.

As questões dessa criança são neurológicas? São psicológicas? São passíveis de tratamento não medicamentoso? Que tipo? Como família e escola podem caminhar juntos, evitando pré-julgamentos? E eu nem estou pensando em resultados escolares, desempenho, nada disso. O que estou tentando pensar em voz alta aqui é mesmo o estar, ou o bem-estar, da criança… ela ter paz, como gosto de dizer, para levar uma vida comum, sem estar sempre pensando no futuro e sem viver o momento presente, às vezes se esquecendo do passado… Ela ter paz para se dedicar a cada atividade, no momento em que está acontecendo, e não se dispersar a cada vez que o colega ao lado coçar o nariz ou pegar um lápis.

Talvez seja um dos grandes desafios contemporâneos, como conseguir identificar pontos que precisam ser trabalhados sem transformá-los em patologia e como conseguir trabalhá-los, sem massacrar a criança, cotidianamente. Por outro lado, como enfrentar algumas patologias com tratamentos não medicamentosos? E ainda: como entender quando realmente é necessária uma medicação. Esse é daqueles grandes abismos, a meu ver, que se colocam entre a família, a criança, a medicina, a escola e a sociedade. Para conseguirmos avançar, pensando na criança, é preciso refletir, questionar, ter o direito de repensar, de mudar de ideia, de se despir… e ainda assim, ter muitas dúvidas, e correr o risco de errar. Se a gente erra junto, pelo menos, tem a chance de recomeçar melhor.

Todo esse texto é para apresentar para vocês um outro texto muito importante que uma amiga querida, a Lucinha, colaboradora sempre presente, me enviou. Vale a pena ler, refletir e, quem sabe, se despir…

“Transformamos problemas cotidianos em transtornos

mentais”

Fonte El País

Catedrático emérito da Universidade Duke comandou a

redação da ‘bíblia’ dos psiquiatras

Allen Frances neste mês, em Barcelona. / JUAN BARBOSA

Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?

Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

P. Seremos todos considerados doentes mentais?

R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica… Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de criar novas doenças

R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

P. O que propõe para frear essa tendência?

R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?

R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?

R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.

P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?

Os seres humanos sobrevivem há milhões de anos graças à capacidade de confrontar a adversidade

R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.

P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?

R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.

P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?

R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.

P. Não vai ser fácil…

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R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.

P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.

R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.

P. Em que sentido?

R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.

P. E também será preciso mudar hábitos.

R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

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