Pipas e meninas síndrome de Down: uma delicadeza de crônica

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Pipas que navegam, por Zulmira Furbino, cronista do Jornal Estado de Minas. 

Durante cinco dias de janeiro, quando o inverno está chegando ao fim, os moradores da cidade de Ahmedabad,  na Índia, costumam subir aos telhados de suas casas para soltar papagaio. É o Festival Internacional de Pipas.

Nesse dia, o azul lá em cima fica salpicado de arraias, que brincam e brigam entre si. Elas mergulham em direção ao solo, voltam a subir, e,  às vezes, derrubam umas às outras. Algumas se embolam nos fios, outras ficam esquecidas no alto das casas, as de cá permanecem no alto, as de lá são levadas pelo vento e desaparecem no infinito.

O festival veste de cores, desejos e sonhos os telhados das casas, mas principalmente, a alma das pessoas, o que torna a dança das pipas no céu comparável à poesia da aventura humana na terra.

Essa viagem nos mostra que quanto mais a gente acredita que tem a ensinar, maior é nossa necessidade de aprender. E que os mestres, quem diria, surgem de onde menos se espera.

Ultimamente encontrei-me com dois, digo duas. A primeira, que provavelmente não se lembra de mim, numa situação muito triste. Com a segunda trombei na academia, e aí sim tive o prazer de me apresentar.

Mariana e Helga são os nomes das minhas duas heroínas. Ambas inteligentíssimas, doces, sensíveis e portadoras da síndrome de Down.

Estávamos num velório quando Mariana se encontrou com a prima, que perdeu uma irmã muito querida. O sentimento que pairava no ar era de angústia e de dor. Naquele momento de fragilidade, quando qualquer pessoa considerada “normal” fica sem saber o que dizer, ela chegou sorrindo de mansinho e se dirigiu à prima com a delicadeza dos beija-flores, evitando tocar diretamente no assunto que a machucava tanto:

– Esse colar que você está usando é tão bonito! E combina tanto com você!

Mariana é integrante de uma companhia de dança e ensaia seus primeiros passos de atriz. Já se apresentou em muitos palcos Minas e Brasil afora. Como poucas pessoas por aí, é dona de uma energia boa, que contamina quem está por perto.

Helga tem o mesmo astral. Deve ter começado a fazer ginástica há pouco tempo, porque só a encontrei duas vezes. Quando nos conhecemos, havia uma terceira pessoa na conversa: dona Nadir, uma bisavó que é chapa de todo mundo na academia, onde dança, faz spinning e musculação regularmente.

Quando a bisa se foi, Helga me disse:

– Na aula de dança fico observando a dona Nadir e me sinto tocada. Acho incrível a disposição e a alegria que ela tem. Quem dera chegar assim à idade dela. É admirável, né?!

Como ocorreu quando testemunhei Mariana cuidando a dor de sua prima com tanta suavidade, ao conversar com Helga fiquei emocionada. E até hoje me sinto assim ao pensar nas duas, na aventura de viver e nas arraias voadoras de Ahmedabad.

A variação de cores e formatos dos objetos de papel de seda lançados por milhões de pessoas ao céu da cidade indiana é praticamente infinita.

Existem, no entanto, algumas coisas em comum naquela profusão de pontos tão coloridos quanto minúsculos que salpicam o azul do firmamento. Todos foram feitos para voar, todos são pipas, embora seus formatos e cores sejam muito diversos.

Tal qual as pipas que balançam ao vento podem ser consideradas parte de uma mesma categoria, os seres humanos também são uma só espécie. Como é possível, então, serem ao mesmo tempo tão iguais e tão diferentes?

Está aí um mistério impossível de desvendar.

O que sabemos é que a raça humana foi feita para crescer e alçar voo, mesmo que as habilidades e aparências de uns e de outros sejam ricamente desiguais. Não digo que seja um desafio fácil, mas se por um lado a vida às vezes se mostra  dura, por  outro é bonito garimpar as flores de cacto.

O universo pode ser comparado com um imenso guarda-chuvas que abriga as pequenas, grandes, enormes diferenças que nos tornam tão irremediavelmene iguais. Nele cabe tudo. Até um bando de malucos subindo nos telhados para embarcar desejos e sonhos em pipas que navegam pelo céu.

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