Nunca é tarde, sobre o passar dos anos e deficiências, por Nágela Caldas

Foi uma grata surpresa receber o texto da jornalista Nágela Caldas, que atuou durante muitos anos em Paracatu, no noroeste de Minas, minha terra natal, e atualmente mora nos Estados Unidos. Nágela e eu somos da mesma família, primas em algum grau que eu não sei explicar direito… Muito bacana o registro e o alerta que ela faz sobre a importância dos países se estruturarem para cuidar bem de idosos e pessoas com deficiência não só nos serviços de saúde mas no lazer e em todas as possibilidades de se promover a inclusão. Vale a pena ler…

Nunca é tarde, por Nágela Caldas

O céu, de azul intenso sem uma nuvem sequer, contrastava com os cabelos branquinhos e curtos que teimavam em não obedecer ao penteado. Com o sorriso franco, se aproximou docemente e se apresentou: Georgia.  Era primavera de 2012, alguns meses após a minha mudança para os Estados Unidos. Frequentávamos a mesma academia só para mulheres.  Os nossos bate-papos eram sempre muito agradáveis. Começaram com trivialidades e, com o passar dos dias, já falávamos sobre a vida e os seus desafios. Não eram conversas diárias porque eu não ia à academia com a mesma frequência que ela. Aos 82 anos, disposta para a vida, mostrava a sua elasticidade executando movimentos com uma firmeza incrível.  Ela me dizia que a vida é surpreendente e boa. É preciso aproveitá-la, agradecer por tudo que nos acontece e valorizar cada nascer do sol. “Sempre há um propósito”, me ensinava.

Conversar e aprender com pessoas mais velhas sempre foi um prazer para mim. E por aqui é muito comum vê-las ativas, trabalhando, dirigindo carros, independentes e se divertindo. Não somente os que estão bem de saúde como Georgia, mas os que também têm alguma dificuldade. Uma realidade bem diferente da que conhecia. Nos supermercados, há carrinhos elétricos equipados com sinalização para se locomoverem com mais agilidade e segurança pelos largos corredores. E nesses comércios há um cordial funcionário sempre pronto para auxiliar, se preciso for. Comum ver os idosos nos cassinos (sim, em Nevada, os cassinos são liberados e movem boa parte da economia do Estado. A cidade de Las Vegas é famosa por oferecer luxuosas opções nesse setor).  E os idosos e pessoas com deficiências têm à disposição os mesmos carrinhos elétricos equipados com uma cesta. Não raro, vi pessoas utilizando cilindros de oxigênios colocados nessas cestas. Mesmo com dificuldades respiratórias, não se privam, saem de casa para se divertir. Afinal, têm os mesmos direitos que qualquer outra pessoa.

Também me chamou a atenção a infraestrutura dos lugares mais distantes da cidade. Áreas de camping com mesas destinadas a pessoas com alguma deficiência física, rampas e banheiros adaptados para atendê-las. Assim também são os museus, teatros, cinemas, shoppings, restaurantes, aeroportos, entre alguns dos lugares que já visitei.  Recentemente, a minha mãe veio me visitar e, como havia feito uma cirurgia no joelho há pouco tempo, resolvemos que melhor seria se locomover pelos aeroportos em cadeiras de rodas. Por isso, teve preferência e assistência de atenciosos funcionários  em todos os três aeroportos pelos quais passou para chegar até aqui.  Em nenhum deles, esperou em filas.

Nos estacionamentos há vagas reservadas para deficientes físicos. A multa para quem não respeita a lei é de 250 dólares, cerca de R$ 600. E a cada vez que estacionar ilegalmente nessas vagas, a multa dobra. Na quarta vez, o motorista perde a carteira de habilitação por um ano. E é fácil identificar o infrator porque o carro do deficiente físico ou de quem o transporta deve ter placas com o desenho universal de identificação.

Onde moro há um respeito e uma atenção diferenciada a essas pessoas. Um carinho a mais. Preferência para atravessar a rua, para entrar no estabelecimento comercial e para se acomodar. Todos os ônibus de transporte público possuem rampas e há vans especiais para atendê-las que funcionam como taxis, por um valor um pouco maior do que cobrado em ônibus comum.  Essas vans levam as pessoas até a porta dos consultórios médicos, hospitais, academias ou em qualquer outro lugar que a pessoa necessite ir.

Morando em outro país é impossível deixar de observar esses avanços. Os Estados Unidos não são um país perfeito, mas aqui foram adotadas essas boas práticas  que garantem, acima de tudo, os mesmos direitos e a total inclusão na sociedade dos idosos e das pessoas com deficiência. A população brasileira está envelhecendo e, por isso, é urgente a necessidade de oferecer aos idosos o direito básico de ir e vir. Para muitos, a velhice parece algo distante. Ledo engano! O tempo passa rápido e muitas das pessoas que estão lendo este texto já estão nessa fase ou chegarão lá. Eu quero chegar lá, ver meu filho adulto, ver meus netos crescerem, ter meus momentos de diversão com acessibilidade e acompanhar a evolução do mundo, da tecnologia e de tudo que tenho o direito de presenciar.

Quanto a Georgia?  Está bem, saiu da academia para praticar natação. Decidiu aprender a nadar aos 84 anos.  “Sempre é tempo. Nunca é tarde quando se quer”, me disse ela com o mesmo sorriso doce e a sabedoria. É verdade. Nunca é tarde para reivindicar direitos e por uma vida repleta de saúde. Viva, Georgia!

 

  • Jornalista, membro da Academia de Letras do Noroeste de Minas. Mora em Reno, no Estado de Nevada, nos Estados Unidos.
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