Na Gandaia 2: Missão Bocha, Sobre Rodas, por Ricardo Albino

jogo de bocha 1

31 de Outubro de 2014. Depois de três anos de espera era chegada a hora de disputar o segundo campeonato de bocha da minha carreira. A competição inicialmente aconteceria apenas no sábado 1º de novembro. Porém, devido ao grande número de participantes e ao horário disponível para realização, foi necessário dividir as partidas em dois  dias. Para minha surpresa, os meus primeiros jogos foram marcados para sexta-feira. Não era aquela 13 tão temida. Mas era dia das bruxas e apesar de não crer, elas poderiam estar disfarçadas nos meus adversários.

Para quem ainda não conhece a bocha é uma modalidade muito praticada na região Sul do Brasil por causa dos imigrantes italianos. A Bocha Paralímpica brasileira é um dos esportes que mais conquista medalhas em campeonatos internacionais. O jogo das bolas, como é popularmente conhecido, consiste em cada jogador colar ou aproximar o maior número de bolas coloridas de seis lançamentos possíveis da bola alvo ou bolin. As partidas acontecem em quatro parciais e ao final, aquele que somou mais pontos é declarado vencedor. Em caso de empate ocorre a quinta e decisiva parcial. A competição é dividida em quatro classes de atletas, segundo suas necessidades.

Classe BC1 ficam os atletas que precisam de auxílio para posicionar suas cadeiras de rodas e também é permitido a função de entregar a bola para o jogador.

Classe BC2 estão os atletas que podem movimentar suas cadeiras sem auxílio.

Classe BC3 ficam atletas com lesões graves que usam equipamentos e precisam de ajuda de um auxiliar para se locomover.

Na Classe BC4 estão atletas que possuem lesões graves mas que não precisam de assistência. A concentração e o equilíbrio entre mira e força são o caminho das vitórias.

Com apenas seis meses de volta aos treinos, já saí de casa com o maior aprendizado que a Educação Física me deu. Nossa maior conquista é mais ainda que competir, ter vida e força para estar ali participando e compartilhando sentimentos e experiências. As medalhas de ouro, prata e bronze, em minha visão, simbolizam o esforço e a dedicação aos treinamentos. Muitas vezes disseram que não me esforço para melhorar. Aquele momento, o simples fato de estar ali, fazendo o que gosta, vale muito para mim e todos os atletas presentes.

A Regra era essa na minha classe; quem ganhasse na sexta seguia em frente. Cheguei animado, mas bem tranquilo ao evento. Foram dois jogos. Minha primeira oponente foi a amiga Adriana. Estreante em campeonatos, a moça pediu que eu fosse educado, como um namorado faz na primeira vez de uma mulher. Brinquei dizendo que seria cuidadoso com ela. Venceria nosso duelo por um placar baixo.

Durante o treinamento da semana, costumo utilizar uma cestinha no colo para guardar as bolas antes de cada jogada. Justamente na hora que eu mais precisava, ela esta com outro atleta. Senti-me como se a bruxa tivesse voando por ali para varrer minha alegria com sua vassoura. Minha professora não conseguiu substituir e fui obrigado a colocar as bola na minha cadeira. Chegou a ser engrado. Cada bola que lançava em direção a bola alvo, outra caía e para não ser penalizado, chamava o árbitro assim; “… Senhor juiz, pare agora”!

Nosso jogo começou equilibrado. Perdi pela contagem mínima as três primeiras parciais, precisava empatar na quarta para tentar uma virada emocionante. Levei de 4 a O, 7 a 0 na soma geral. Parecia um Brasil contra Alemanha na versão bocha. Para me recuperar da derrota inicial, fui ao encontro dos amigos para carregar meu caldeirão de boas energias para meu segundo e aquelas alturas, decisivo confronto.

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Meu amigo Felipe até emprestou seu cesto para que ficasse mais tranquilo. Mas eu e a cestinha dela não tivemos o entrosamento esperado. Ela tombava para frente e as pelotas caiam. Mesmo assim, o resultado apesar de negativo, foi considerado melhor. Perdi de 5 a 0 para um atleta de Uberlândia. O detalhe a ser destacado é que eu voltei a treinar na metade de 2014 e uma hora por semana. Meu adversário do triangulo mineiro treina nove horas semanais, três horas por dia. Além disso, tem como parceiros de clube, alguns que fizeram ou ainda fazem parte da seleção Nacional.

Ao final daquela tarde, fui comemorar e espantar o feitiço da tristeza que por acaso pudesse querer se aproximar. Saí de lá na companhia de duas torcedoras especiais. Minha tia que gritava na arquibancada a cada bola certa e minha mãe, minha medalha mais dourada da vida e pessoa que fui fazer um merecido, gostoso e agradecido brinde pela vida regado a chope gelado no canecão.

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Ricardo Albino, jornalista, Coluna Sobre Rodas / Tudo Bem Ser Diferente

ricjornalista@hotmail.com / http:// HYPERLINK “http://ricardo-albino.blogspot.com.br

Fotos de arquivo pessoal

As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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