A difícil socialização e as amizades verdadeiras das crianças diferentes

Sonhei essa noite com esse tema… e para minha surpresa encontro esse post vi@ Andréa Werner Bonoli, do Blog Lagarta vira pupa, em seu perfil pessoal no facebook: a difícil socialização das crianças diferentes e os desafios para a construção de amizades verdadeiras… as discriminações veladas, os não ditos, os rótulos, os outros que se acham superiores, as frequentes ‘correções’ de comportamentos pelos colegas, a vergonha… para refletirmos… da série: longo caminho a ser percorrido em nós mesmos… e por nós mesmos… Ela postou a imagem a seguir. E a partir dela, a Laura Martins, do blog Cadeira Voadora produziu um comentário muito interessante no meu perfil pessoal. Resolvi dividir com vocês o pensamento dela.

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Por Laura Martins

Aceitar o diferente é um grande desafio para a espécie humana. Nosso aprendizado ancestral é de desconfiar daquele que pertence à outra tribo, ao outro povo… Ele é meu concorrente. Não é meu amigo e está longe de ser meu irmão de humanidade.

Os tempos passaram, mas a desconfiança e a animosidade continuam coladas ao nosso comportamento. E acredito que será preciso uma longa desconstrução/des-formação para que aprendamos que o diferente não é inimigo. Jung foi além: falou do diferente que está dentro de mim — e ao qual é mais difícil ainda amar. Porque o desafio está muito mais dentro do que fora.

Tenho grandes amigos negros e gays. Também viveram uma infância e uma adolescência de discriminação. A discriminação entra pela idade adulta, mas, aí, já existe uma longa experiência de vida, uma maturidade para lidar com os rótulos, com os que se acham superiores, os que não querem ser vistos conosco.

Acredito que eu aprendi a não discriminar sentindo na pele a discriminação. Fui olhada com desconfiança durante anos. Tinha colegas de faculdade que me pediam carona, mas tinham medo de que eu não soubesse dirigir “aquele troço” direito. E eu os convidava a descer do carro. Uma vez fui síndica no meu condomínio, e um advogado que assistiu a uma das reuniões me parabenizou, porque não achava que uma deficiente fosse capaz de se sair tão bem naquele papel.

Cedo aprendi que eu não iria longe se não cuidasse da minha autoestima — e que autoestima não é verniz. É profunda construção de se respeitar e se amar como se é.

Então, hoje entendo que precisamos educar nossas crianças para que tenham uma autoestima fortalecida. Fácil não é. Receitas não há. Minha grande inspiração continua sendo Gandhi, que se fez respeitar sem necessitar se transformar naquilo que ele nunca teria condições de ser. E que tentou mostrar ao seu povo que não se vai para frente sem respeitar aquilo que se é — no caso, suas tradições.

Mas gostaria de acrescentar algo. Não se pode evitar que nossas crianças experimentem frustração. Primeiro, porque de fato não é possível; frustrar-se faz parte do desenvolvimento humano. Segundo, porque a frustração tem uma utilidade: ela nos amadurece; ficamos mais fortes ao conseguir elaborá-la. Querer impedir que nossos pequenos sofram é abortar o processo de desenvolvimento que levaria a larva a se transformar em borboleta.

Para finalizar, lembro as palavras da psicanalista Evelin Pestana: 
“Criamos nossos filhos buscando evitar, de todas as formas, que eles sofram. O que buscamos, na verdade, é não termos que lidar com certas dores que, ao longo da vida, fomos evitando sentir em nós mesmos. Quando exigimos de nossos filhos que eles sejam fortes, vitoriosos, que não sejam fracos, “moles”, estamos ao mesmo tempo ensinando a eles que não somos capazes de acolhê-los caso eles precisem de nós. São muitas, entretanto, as dores que, uma vez reconhecidas como tais, se tornam o fundamento de relações confiáveis, genuinamente humanas. A dor pode aproximar pais e filhos. A necessidade de ser sempre forte, não. Fomenta a solidão.” (Evelin Pestana, Casa Aberta – Página, Psicanálise, Artes, Educação)

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