Jovem com Asperger, aprovado no vestibular, conta como venceu desafios da educação inclusiva e do convívio social

10846498_930226836987792_3510927831802893995_nPor Sônia Caldas Pessoa

A minha amiga Selma Sueli Silva, jornalista de tantas jornadas, vez ou outra colabora com o nosso blog. Na semana passada ela compartilhou em seu perfil pessoal nas redes sociais a felicidade pela formatura do filho no ensino médio e a aprovação no vestibular. Como a mãe, Victor Arthur Silva de Mendonça vai ser jornalista. Ele tem 17 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Foi aprovado no vestibular do curso de jornalismo do UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra, com lançamento programado para 12 de dezembro próximo.

Victor nos conta no texto a seguir como venceu os desafios da educação inclusiva e do convívio social. O relato diz muito, para mim, do amadurecimento de um jovem, do entendimento da sua diferença e da diferença dos outros, dos seus próprios limites, e do aprendizado para enfrentar os desafios que fazem parte da vida de muitos de nós. Antes do texto do Victor, porém, gostaria de compartilhar com vocês o depoimento de uma amiga dele: “Bem vit, são 4 anos ao seu lado, muitas vezes foi difícil, nós caímos, choramos, nos desesperamos, e nem sempre nossa saúde estava a nosso favor, às vezes parecíamos estar sozinhos e isso doía e fazia querermos desistir, mas sempre continuamos nos ajudando. Você de todos foi o meu maior professor, pois você me ensinou o valor da vida, a aceitar o “diferente” e fazê-lo um igual, me ensinou que por mais difícil que seja uma batalha não devemos desistir, obrigada por permitir que eu entrasse em sua vida, que eu me tornasse uma amiga, obrigada por me ensinar tantos ensinamentos budistas, e acima de tudo obrigada por me tornar uma pessoa melhor! Sonho com o dia em que mais pessoas do mundo tenham o seu coração, nunca vou me esquecer de você, anjo especial! (Gabriela Neves). 

Agora, o relato do Victor Arthur Silva de Mendonça (17 anos, Síndrome de Asperger) 

“Dizem que a maior dificuldade de quem possui síndrome de asperger, como eu, é o convívio social. Sempre defendi a tese de que humanos são seres sociais e o bem-estar social envolve uma questão de saúde. Eu passei a minha infância sem entender direito como as pessoas pensavam e a maneira como me viam. Era agressivo e manifestava muito minha bipolaridade. Nem as pessoas que mais me amavam, muitas vezes, conseguiam entender essas crises mais que como uma simples malcriação.

Com o tratamento psicológico e psiquiátrico que veio após o diagnóstico, aos 11 anos, as coisas foram melhorando nesse sentido. Então eu cresci e passei a tomar mais consciência das coisas. Notei o quanto, às vezes, eu era sincero demais ou inconveniente demais ou agressivo demais. O que acabou me travando de uma maneira prejudicial. Era o início de uma fobia social que se agravava e parecia não ter fim. Passei a tremer muito só de realizar coisas simples como pegar um copo ou caneta. Passei a ter medo de que as pessoas percebessem o meu temor. Passei a ter medo das pessoas.

Ano passado, fiquei a maior parte do período letivo estudando em casa com minha professora particular. Voltei a recitar meu mantra budista, o que, segundo meu próprio psiquiatra, é forte aliado para organizar o cérebro. Enquanto estive em aulas no colégio, tive a chance de me aliar aos amigos certos. E, aos poucos, fui percebendo que eles me aceitavam do jeito que eu era, que eu não precisaria copiar o jeito dos outros e mudar o meu para ser aceito. Fui ganhando confiança, fortalecendo laços e conhecendo novas e maravilhosas pessoas até que não restasse nenhum vestígio do que eu era antes.

No colégio onde estudava, batalhei por uma boa educação inclusiva sem optar por bater de frente com a escola. Minha mãe construiu essa ponte com a instituição e depois me passou o bastão, dando-me a oportunidade de me posicionar e aprender a lutar pelos meus direitos. O colégio é repleto de excelentes profissionais que também são pessoas queridas. E ver tanto esses profissionais, como meus amigos, falando do quanto me admiram e me agradecerem pelo que aprenderam comigo, me faz sentir o gostinho de missão cumprida. O menino que queria ser amado não só foi como ajudou e amou outras pessoas.

E aquele garoto que optou por ir ao Baile de Formatura no início do ano baseado puramente na fé, pois não tinha certeza de que daria conta? Aprendi a trabalhar a ansiedade, a valorizar o processo e não o resultado, e pude curtir a comemoração de cada vitória. Como quando resolvi sair de minha redoma de medo e insegurança para fazer uma prova e passei no vestibular. Futuro jornalista, consegui emprego em revista antes mesmo de iniciar o curso e tenho outros projetos pela frente.

O ato de se formar no ensino médio, concluindo assim um ciclo importante para a vida de qualquer um, é sempre algo expressivo. Mas para mim, a formatura teve um gosto especial como a cereja do bolo de um ano de vitórias. Agora sei que nem o anteriormente meu maior pesadelo, a síndrome de asperger que possuo, poderá me impedir de conquistar os meus sonhos. Coisas simples como ir a um lugar barulhento serão sempre mais difíceis para mim em um nível que nenhum neurotípico poderá entender. Os desafios serão maiores. E, consequentemente, as vitórias também.

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 17 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Foi aprovado no vestibular do curso de jornalismo do UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra, com lançamento programado para 12 de dezembro próximo.

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