Manter a mente e o corpo ativos, um grande desafio para os Asperger, por Victor Arthur Silva de Mendonça

Victor MendonçaSe há algo em comum entre os contos de fadas lidos por nossos pais para nós quando somos crianças, é aquele “e eles viveram felizes para sempre”. Mas o ‘felizes para sempre’ realmente existe? Penso em mim, como jovem que se descobriu asperger e passou por muito sofrimento antes de conquistar todos os sonhos e objetivos até então traçados. Eu poderia concluir minha história aqui caso essa fosse uma fábula infantil. Mas sei que a vida continua. Novos desafios virão.

Existem dois tipos de situações que são perigosas. Cada uma em seu extremo. Quando as circunstâncias estão ruins demais ou boas demais. Já experimentei a primeira delas inúmeras vezes. No auge do sofrimento, não conseguia enxergar o que poderia fazer para transformar aquela situação. Ao invés disso, só lamentava. Mas o outro lado também é perigoso. Quantas vezes não acreditei que, por ter conquistado algo, poderia parar de lutar por novos objetivos? E não me precaver quanto a novas adversidades?

No próximo ano, terei experiências completamente novas, pois começo a faculdade de jornalismo. Não faço a menor ideia de como vai ser. Isso é algo assustador para qualquer asperger. O desconhecido, o que foge ao que é combinado e seguro mexe com todo mundo. Mas, considerando a síndrome, isso nos desorienta de um jeito que pode colocar todo um caminho cuidadosamente construído a perder. Dessa vez, a única coisa que sei é que haverá derrapadas feias sim, mas que elas não podem e nem devem me colocar para fora do rumo que tracei (e traço) para minha vida. Tenho bagagem acumulada com a experiência bem-sucedida no ensino médio. Medito sempre, como meio de organizar meus pensamentos e enxergar as coisas mais claramente. Estudo minha religião, o budismo, para aprender mais sobre a vida. Quanto mais conhecemos sobre ela, mais preparados ficamos para enfrentar qualquer coisa que esteja por vir.

Outra coisa que desorganiza nosso cérebro são as férias. Neurotípicos geralmente as adoram. Eu detesto. O tédio alimenta crises. Por isso, venho tentando fazer o máximo de coisas possíveis. Fiz um curso de jornalismo digital. Recebi amigas em casa num divertido jantar de comida japonesa. Sempre vou ao salão com minha mãe para jogar conversa fora. Divirto-me muito com a dona do estabelecimento, ela é ótima e engraçada. Faço arteterapia que me dá, ao mesmo tempo, a força e a leveza de que eu preciso. Vou a eventos culturais. Participei do lançamento da 1ª edição da revista “Estrada da Serra”, na qual sou colunista de cinema. Assim, aos poucos, vou diminuindo o uso do rivotril.

Então, uma dica que eu daria a famílias com ‘asperger’ na mesma situação que eu é: ocupem seus parentes especiais com coisas que vocês gostem de fazer. A ansiedade, tão comum nessa nossa síndrome, só é positiva quando canalizada para algo prazeroso e produtivo.

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 17 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Foi aprovado no vestibular do curso de jornalismo do UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra, com lançamento programado para 12 de dezembro próximo.

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