Como sair da rotina sem estresse para um “Asperger”? Dica do Victor Arthur Silva de Mendonça

Victor Mendonça

E mais um ano chegou ao fim… Foi hora de reunir a família. Isso, para mim, significou passar de casa em casa e me encontrar com parentes das mais variadas personalidades.  Do sítio da minha avó à sua casa em Belo Horizonte, até a residência de meu pai em condomínio fechado, pude estar com tios e primos dos mais variados graus. Em meio a tudo isso, ainda deu tempo para retornar um pouquinho em casa para uma sessão de arteterapia.

Eu estaria mentindo se negasse que adorei tudo isso. Com minha avó, tios e primas, rimos bastante, mas também falamos sério. Com meu pai e uma prima de segundo grau, pude abrir o verbo e falar sobre hiperfocos – aqueles assuntos que nós asperger temos quase como obsessão. É que meu pai e essa prima têm esse interesse em comum por arte, cinema, televisão, música e escrita. Geralmente, as pessoas acham entediante ver você quase que declamando sobre esses assuntos, insistentemente. Por isso nem dou ideia com outros. Mas com eles, a conversa flui.

Foram momentos preciosos e eu aproveitei cada um deles o máximo possível. E para as festas de fim de ano, certamente vem mais por aí. Mas, se foi tudo tão prazeroso, por que tem horas que me dá aquela vontade de estar na minha casa fazendo alguma coisa banal do tipo assistir a uma novela? Por que estou tão cansado de estar rodeado de pessoas se eu adoro isso?

Manter-se na rotina é uma das características conhecidas de nós asperger, que tendemos a ter hábitos e comportamentos repetitivos. Quebrar essa rotina não faz mal nenhum, pelo contrário, sair da inércia é algo muito importante para trabalhar a ansiedade inerente à síndrome. Mas é preciso notar que há um limite. E é aí que entra a velha questão da sobrecarga. Que pode sim, ser um sobrecarga sensorial. Muitas pessoas conversando, por mais prazeroso que o papo seja, vai acabar incomodando mais cedo ou mais tarde.

Então, há de se saber a hora de dar um passo para trás e descansar, voltando temporariamente à rotina. Nesse processo, é muito importante a observação da família que deve estar atenta a esse ponto limite. Com isso, conseguimos impulso para dois ou mais passos para frente. E, assim, oscilando entre o previsível e o desafiador, momentos prazerosos são construídos tanto na rotina, quanto fora dela.

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 17 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Foi aprovado no vestibular do curso de jornalismo do UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. É também assistente de produção do programa Fala Comigo, da Rádio Itatiaia. victormendonca97@hotmail.com

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