Os desafios de um novo ano escolar para os Aspergers, por Victor Arthur Silva de Mendonça

Victor MendonçaCom a proximidade do mês de fevereiro e o retorno às aulas, percebo que não estou aflito para voltar a estudar, agora em um lugar completamente novo e diferente para mim, a universidade. Eu sempre tive medo de entrar para a faculdade, sair da zona de conforto da escola onde eu conhecia todo mundo. Hoje vejo isso como mais um desafio vindo para uma pessoa que os abraça buscando o próprio aperfeiçoamento, para que, a partir desta evolução pessoal, possa inspirar e ajudar outras pessoas.

Mas nem sempre foi assim, o que me fez perceber que eu precisava de um trabalho interno até chegar à leveza que tenho hoje.  Ainda me lembro daquela criança que ia apavorada, sentindo taquicardia, para os primeiros dias de aula. Mudanças são problemáticas para quem possui essa minha síndrome, e quando você passa de ano alguns de seus professores e colegas vão mudar, é claro. Você não faz sequer, ideia de como será a personalidade das pessoas que conhecerá. E isso é realmente assustador.

Para evitar uma situação como essa é conveniente que os pais (ou o próprio aluno) conversem com a supervisão e expliquem que aquele amigo ou aquela amiga mais próxima deve continuar na mesma turma do aluno asperger. Esse amigo vai ser o principal aliado na hora de protegê-lo da carga de novidades. Eu tenho uma amiga que fez todo o ensino médio comigo e ela sempre conversava com os professores e coordenadores sobre as minhas dificuldades sem que eu precisasse me expor (eu morria de medo disso na época, vejam como o mundo dá voltas). Levar um bilhete de casa também ajuda. Eu tinha uma forte fobia social. Minha mãe explicava essa adversidade em um bilhete que minha amiga entregava para todos os professores que a gente ainda não conhecia.

Ainda que possa acontecer uma ruptura até de forma definitiva, quando um asperger cria confiança em alguém ela é difícil de ser quebrada. Então essa primeira amizade é um ponto primordial. Afinal, é com essa pessoa que você percebe que existe sim, gente no mundo com essência positiva e determinada a ajudar, a querer o melhor para o outro.  E aí o asperger começa a enxergar isso em outras pessoas, a querer desvendar o mistério da personalidade delas e descobrir o que elas têm de positivo. E como todos têm qualidades e defeitos, é bom se conectar com esse lado iluminado de cada um. O grupo de amigos cresce, e a confiança no ser humano também. Assim, é possível por um fim nessa masmorra de medo e ansiedade que pode ser a volta às aulas para alguém especial.

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 17 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Foi aprovado no vestibular do curso de jornalismo do UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. É também assistente de produção do programa Fala Comigo, da Rádio Itatiaia. victormendonca97@hotmail.com

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