Os desafios do cérebro para um Asperger, Por Victor Arthur Silva de Mendonça

10302745_1549676391966485_4239602496909650395_nUma das coisas mais difíceis para quem possui asperger são as armadilhas criadas pelo próprio cérebro dos portadores dessa síndrome. Você não precisa de ninguém tentando te desestabilizar. A sua própria mente já faz isso e é preciso muito equilíbrio para não ser derrubado por esses obstáculos. Sabe aquele ditado que diz que o ‘bem sempre triunfa no final’? Eu consigo acreditar em partes nessa frase. Num mundo guiado pela consequência dos atos das pessoas, é natural que uma ação ruim vá gerar um efeito também desagradável. E é claro que o contrário também acontece.

Mas a realidade é mais complexa do que isso. Quando eu era criança, muita gente colocava a responsabilidade pelas minhas crises na educação que recebi de minha mãe. Na época sem diagnóstico, eu era apenas um menino malcriado. Eu sabia que isso não era verdade. E sempre tive a plena consciência dos esforços de minha mãe, que era – e é até hoje – rígida e terna na medida certa.

Então, se eu era uma boa pessoa, ou pelo menos tinha criação para ser, por que eu me afundava tanto em depressão e ansiedade? Por que qualquer acontecimento que saísse o mínimo possível do planejado me desconstruía de forma a me levar a uma sensação de total desespero? Claro que as pessoas não estão preparadas para lidar com o diferente. Mas é nesse mundo, com essas circunstâncias, que vivo. E agora?

Tudo começou a mudar quando eu notei que todos têm qualidades e defeitos e é com o lado bom de cada pessoa que eu quero me conectar. Pode parecer óbvio, mas muitas vezes deixamos de enxergar essa realidade. Só que, para conseguir atingir esse objetivo, é preciso primeiro cuidar de si. É por isso que não concordo 100% com a frase que citei no primeiro parágrafo. O bem precisa se cuidar para conseguir a vitória. E esse lado bom, como eu disse, todos temos. Manter-se num estado de vida mais elevado é um exercício constante, mas traz benefícios para todos que topem o desafio.

Mas como se manter equilibrado num mundo que desorganiza o cérebro de qualquer pessoa com essa nossa síndrome? É preciso conhecer as regras do jogo. Por isso que um diagnóstico é tão importante. Você não vai ser definido por aquilo, mas é um passo muito importante para quem deseja se conhecer melhor. Negar que possui algumas limitações típicas de asperger não vai ajudar em nada. Sim, é importante se desafiar e procurar transcender os limites. Mas tudo a seu tempo. Não é preciso dar um passo maior que as pernas. Quando a gente dá o melhor de si no presente e se mantém nessa frequência positiva, o sucesso no futuro está garantido. Mas como alcançar esse equilíbrio? Buscar o autoconhecimento e ter a mente aberta para o relacionamento com outras pessoas são excelentes caminhos. Quem conhece as regras do jogo, tem mais chances de vencer no final.

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. É estudante de jornalismo pelo UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. É também assistente de produção do programa Fala Comigo, da Rádio Itatiaia. victormendonca97@hotmail.com

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