Inclusão escolar: entrevista com Cristina Silveira

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Em meio a comemorações referentes ao dia da Sindrome de Down, do autismo  e da epilepsia, é importante lembrarmos de um assunto  de suma importância: A INCLUSÃO ESCOLAR. Até onde caminhamos sobre essa inclusão, no que se refere ao seu principal objetivo: a aprendizagem? Nessa entrevista à Revista do Professor,  a psicopedagoga e psicanalista Cristina Silveira, colunista do nosso blog Tudo Bem Ser Diferente.

Editora do Professor / Revista do Professor edicão 120                            

Entrevista com Cristina Silveira

1- Inicialmente, gostaria que você nos explicasse a diferença entre a inclusão social e a inclusão escolar. Em um de seus textos, você disse que a inclusão escolar é muito mais do que a inclusão social.

Sim. A inclusão escolar, vai além da construção de amizades e vínculos de sociais no espaço da escola. Nela se insere uma importante e imprescindível necessidade básica do aluno: APRENDER.

A aprendizagem, a meu ver, deve ser valorizada da mesma forma, já que essa é a principal função das instituições escolares. Ensinar, proporcionar ao aluno condições de aprender, oferecendo técnicas e métodos adequados a cada criança com necessidades especiais. Esta é a inclusão escolar verdadeira.

A inclusão social é importante sim, é um primeiro passo. Mas Já passamos desse ponto. A Lei da inclusão, a LDB é de 2008, por isso não justifica colocar o aluno de inclusão em uma escola regular simplesmente para ocupar um espaço em uma sala de aula. Fazer isso é perder a oportunidade de desenvolver o seu potencial, o seu talento, a sua capacidade de se realizar através do conhecimento. E para além disso, humanizar a pedagogia , que deve se atualizar e acompanhar as novas necessidades que surgem nas escolas.

2-Na sua experiência profissional, o que você tem observado hoje sobre a realidade da inclusão escolar?

A realidade da inclusão escolar passa longe dos belos discursos sobre o assunto. Nessa realidade, vemos de tudo: alunos especiais sendo expulsos da sala de aula, serem expostos a boletins de ocorrência policial devido a “ agressividade”, serem colocados nas últimas carteiras, isolados, sem mediadoras, sem material alternativo, sem sequer um plano pedagógico condizente com a sua realidade cognitiva. Às vezes oferecem até um brinquedinho ou uma massinha de modelar para que ele passe melhor o tempo. Realmente, é um absurdo.

Mas existem também escolas e professores que estão tentando acertar. Estamos caminhando em algumas instituições escolares, mas existe muito o que fazer ainda. O antigo discurso de que o “ acolhimento social” deve ser feito, de que devemos ter “ boa vontade” e “amor” deve se modernizar. Atualmente, precisamos de apoio das políticas públicas, para apoiar essa “ inclusão escolar” em tudo o que se faz necessário: Salas especializadas, equipamentos, softwares, tecnologia assistiva, materiais pedagógicos diversos para que permitam ao corpo docente das escolas atuar adequadamente com esses alunos.

Cursos de capacitação são imprescindíveis! Capacitação que inclua métodos e técnicas de ensino especial, manejo comportamental, conhecimento de alguns diagnósticos, de testes especializados, de métodos de avaliação por exemplo, são fundamentais.

Todas as escolas deveriam ter salas de AEE (Atendimento Especializado) com profissionais capacitados e igualmente remunerados para exercer suas funções, devido a complexidade de atuações exigidas para o cargo.

Cada criança deve ter o seu PDI – Plano de Desenvolvimento Individual, para que possa aprender de fato. Sem um plano especifico, individual, essa criança não vai aprender como deveria, porque a sua forma de aprender é diferente dos demais alunos.

Todos as crianças e adolescentes de inclusão, que necessitarem, devem ter “mediadores” ou os estagiários que os acompanham em constante aperfeiçoamento e com a devida supervisão de \um profissional capacitado para tal. Mas atenção: Os mediadores não são babás, nem acompanhantes que ficam com o aluno para levá-lo ao banheiro, ou mesmo para que ele não incomode os demais alunos na sala de aula. Eles tem funções específicas:

  • Acompanha o desenrolar da escolarização
  • Orienta os técnicos, familiares e professor nas futuras tentativas/intervenções para as estratégias de estimulação e intervenção pedagógicas que não forem bem sucedidas
  • É imprescindível para realizar a avaliação das estratégias e técnicas de ensino alternativo indicadas no PDI – Plano de Desenvolvimento Individual, onde são descritos passo-a-passo como deve ser ensinado o conteúdo pedagógico à criança.
  • Aponta as situações mais favoráveis de estimulação para aquela criança
  • Escrever no “Diário de bordo” todas as suas impressões sobre o aluno. Nele o mediador registrará, diariamente, as reações e o envolvimento do aluno com as adaptações realizadas
  • Sem esse feedback a equipe que cuida da criança pode não conseguir um resultado acertivo na aprendizagem real do aluno

3-A falta de investimento na aprendizagem do aluno com deficiência deve dificultar ainda mais seu processo de inclusão, não é?

Claro. Um processo de inclusão escolar tem seu custo. Como já falamos, é necessário muito investimento nessa área, senão o discurso fica vazio. As famílias já não estão mais aceitando uma “ maquiagem” nesse quesito “ inclusão escolar” e querem que seus filhos aprendam. O que é justo.

4-Como criar na escola e na comunidade uma cultura inclusiva?

Na minha opinião, na escola além de tudo o que falamos até agora deve se ter uma mudança de cultura, assim como na comunidade. A cultura de acreditar que uma criança especial “ não aprende” é obsoleta e deve ser revista imediatamente.

Para você ter uma idéia, tenho alunos autistas que não se relacionam muito bem socialmente, tem dificuldades pontuais em português, geografia e Historia, mas arrasam na matemática, na informática e na robótica. Adolescentes com síndrome de Down são músicos talentosos, pacientes com deficiência múltipla são artistas plásticos, bilíngües. Muitos adolescentes, hoje adultos, estão no mercado de trabalho, produzindo, contribuindo com a humanidade através de seus conhecimentos.

Inclusive, é muito bom lembrar que a Lei da educação inclusiva abrange também os alunos com superdotação. Essas crianças e adolescentes também necessitam de um plano individualizado de ensino, assim como os alunos com deficiência cognitiva. Portanto, a inclusão escolar é mais abrangente do que pensamos.

No final, deve ser um trabalho de conscientização e aceitação do diferente, de forma verdadeira. Deve-se sair do “ discurso decorado” e internalizar o conceito da inclusão verdadeiramente,

5-Como trabalhar a inclusão com os alunos que não têm deficiência?

Trabalhar as diferenças é muito importante e necessário. Acostumamos com um “padrão de normalidade” , onde a perfeição e os modelos padronizados de ensino foram adotados como os “ normais”. As crianças que se acostumam com essa “ padrão” escolar são bem aceitas. Contudo, as crianças que saem desse padrão sofrem preconceitos. É imprescindível que possamos aceitar e até mesmo valorizar as diferenças, porque afinal, não somos iguais a ninguém. E a Lei da inclusão veio nos cobrando essa aceitação. Uma criança receber um colega de inclusão, apoia-lo e ser seu colega nos trabalhos de grupo por exemplo, vai fazer um bem a ela mesma, que será uma pessoa melhor, com certeza.  

5-O que pode ser feito para envolver as famílias num trabalho voltado para a inclusão?

As escolas podem fazer projetos com a comunidade com esse tema, capacitação para os pais, eventos abordando o tema são ótimas soluções. Nas reuniões dos pais levar o assunto através de apresentações e dinâmicas podem dar excelentes resultados.

6-Gostaria que você falasse um pouco sobre a avaliação do aluno com deficiência.

As avaliações das crianças de inclusão devem ser diferenciadas, assim como a introdução dos conteúdos pedagógicos que devem ser feitos através do PDI. As avaliações devem obedecer as necessidades especificas de cada criança, por exemplo: para autistas devem ser feitas provas mais concretas, com mais imagens, com poucas questões abertas e mais questões de múltiplas escolhas ou mesmo trabalhos que substituem provas. Para outras deficiências, pode-se utilizar provas orais, provas realizadas em computadores ou através de sintetizadores de voz. Lembro que todas essas modificações são aprovadas em Lei.

7- A grande diversidade de deficiências traz muitos desafios para a escola e para os professores. Muitos argumentam que não estão preparados e que as escolas não têm condições para promover a inclusão dos alunos. Qual é a sua opinião sobre isso?

Conheço escolas que apesar dos pouquíssimos recursos buscam realizar a inclusão escolar como deve ser feito: respeitando o aluno com deficiência e buscando proporcionar uma oportunidade de ensino/aprendizagem. E também existem instituições escolares que adquirem equipamentos, mas não tem professores capacitados. Se todos fizerem a sua parte, todos ganharão nesse processo: escola, família, governos e as crianças.

8- Você poderia indicar sites, comunidades de aprendizagem, materiais disponíveis para a capacitação do professor ou alguma outra fonte de informação interessante?

Sim, existem muitos. Nós mesmos temos um grupo de inclusão escolar que se reúne com profissionais, pais, familiares, buscando sempre uma alternativa e novos caminhos para a inclusão escolar. Mas na minha opinião, esses grupos devem ser formados pelas próprias escolas e os familiares dos alunos de inclusão para que o propósito de incluir a criança seja mais efetivo.

9-O que você diria a um professor que recebe em sua sala de aula uma criança com deficiência?

Receba essa criança e faça dela o seu propósito, a sua meta, o seu desafio profissional. Ajude essa criança a ser uma pessoa curiosa, criativa e que se apaixone pelo conhecimento, Porque dessa forma, você se tornará uma pessoa muito melhor.

Precisamos de dados da sua trajetória profissional para fazermos a sua apresentação para os leitores.

Cristina Silveira

Educadora , Psicopedagoga, Psicanalista, Arte-terapeuta, neuropsicopedagoga, especialista em educação inclusiva.

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