Teste de paciência, Sobre Rodas, por Ricardo Albino

pandeiro

Amigos leitores, não se assustem com o caso que vou contar. Desta vez, o tom é mais formal do que o de costume; o papo é sério. A criação de vagas para estacionamento especial para pessoas com deficiência, primeiro deve ser visto como justa e porque não dizer um avanço social. No entanto, na contramão, essa ação de inclusão esbarra na burocracia; infelizmente, predominante na coisa pública brasileira.

Ao solicitar uma credencial para fazer uso dessa alternativa descobri que sou ou estou um cidadão bem mais calmo que imaginava. Deve ser o resultado dos anos de terapia ou a arte de sossegar a alma conquistada no curso de contação de histórias. A primeira questão que levanto é: o simples fato da simbologia pintada no asfalto da via pública não seria o bastante para disciplinar o uso dessas vagas? O poder público entende que não e por isso através de normatização burocrática acaba por penalizar aqueles para o quais a vaga especial foi criada.

Testemunhei, ao procurar obter a credencial para uso dessas vagas chamadas de especiais, que a burocracia está na contramão da intenção de tratar os diferentes de forma diferente, ou seja, com isonomia. No dia 26/3, mesmo portando toda a documentação solicitada e o laudo expedido por instituição de renome nacional, financiada com dinheiro público, tive que submeter a um agendamento na rede do Sistema Único de Saúde – SUS para o dia 14/4, para confirmar a minha condição de pessoa com deficiência, algo descrito claramente em laudo médico, repito expedido nada menos do que pela competente e reconhecida Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, laudo este que foi formalmente pedido que eu o levasse ao médico do SUS, no momento da consulta.

Para minha surpresa, apesar de o agendamento prever o atendimento as 13h00min; cheguei às 12h20min recebi a senha de numero 8 e tomei o famoso chá de cadeira; no meu caso cadeira de rodas. Aliás, o atraso não é surpresa, infelizmente, é a regra. A surpresa desagradável ficou por conta do atendimento.

Quando entrei na sala “o moço de jaleco branco” sequer respondeu o meu cumprimento. De cabeça baixa continuou escrevendo numa folha e, em seguida, perguntou: o que ouve aí? Qual a deficiência dele? Perguntou o Doutor ao meu pai. A resposta estava bem perto dele; bastava pedir o laudo recomendado no protocolo de agendamento. Para nossa surpresa, depois de explicarmos com detalhes o meu diagnóstico ele apenas pediu que eu apertasse 2 dedos de sua mão e perguntou se minhas pernas se mexiam e completou dizendo: seu caso vai ser tranquilo aguarde o comunicado; agora só depende da burocracia.

Isto tudo pode até ser considerado normal comparado com o que presenciei quando aguardava ser chamado. Eis que adentrou no mesmo espaço um senhor que se diz com 90 anos de idade, numa cadeira de rodas, que ao se dirigir ao atendente, levado pela esposa, recebeu a informação de que o atendimento não constava no sistema, mesmo após ter alegado que havia recebido uma ligação para comparecer à consulta. Por analogia ao fato narrado anteriormente é, no mínimo, constrangedor falar em avanço social quando um cidadão de 90 anos ao se dirigir com as dificuldades de locomoção vistas a olho nu deixa de ser atendido simplesmente pelo fato de não estar no sistema, no mínimo, um contrassenso, quando, ao contrário, este atendimento, pelo mínimo de respeito do Estado brasileiro, deveria ser feito na residência desse cidadão.

Portanto, se algum dia você precisar passar por isso vá preparado. Leve uma palavra cruzada e tome antes um bom suco de maracujá, pois vai encarar um verdadeiro teste de paciência.

Ricardo Albino, jornalista, Coluna Sobre Rodas / Tudo Bem Ser Diferente

ricjornalista@hotmail.com /

http:// HYPERLINK “http://ricardo-albino.blogspot.com.br

As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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