O asperger e o desenrolar natural da vida, por Victor Arthur Silva de Mendonça, Mundo Asperger

foto

Segundo a filosofia budista, todo ser humano passa por quatro tipos de sofrimento: o nascimento, a doença, o envelhecimento e a morte. Estive pensando em como nós aspergers encaramos essa realidade. Com o peso da síndrome pode parecer impossível seguir em frente tendo que enfrentar o que já é difícil para qualquer neurotípico. Mas são essas situações que ditam o ritmo do universo. Portanto, não há como fugir delas. E se não há como fugir, a única solução é transformar esse veneno em remédio. Afinal, podemos usar tudo isso a nosso favor para conseguir a felicidade. Mas como?

Quando um bebê nasce, ele é jogado fora da zona de conforto representada pelo útero da mãe. Ele agora é parte concreta de um mundo que tem tanto coisas boas como ruins. Mas e um bebê asperger que chega a uma sociedade que não está preparada para lidar com o diferente? Ninguém conseguia justificar o imenso sofrimento que eu manifestava, do nada, quando era criança. Dessa maneira, as possibilidades de traumas são bem maiores.

Ninguém gosta de ficar doente. Até as crianças que ficam doentes e pensam estar felizes, o que elas querem mesmo é a atenção dos pais. É o afeto que elas desejam, não a doença. No caso do asperger, esse quadro fica bem mais complicado por vários motivos. Sabe quando seu filho está mal-humorado, em crise? Ele pode estar doente. A nossa percepção não é igual a de neurotípicos e às vezes temos dificuldades em expressar o que nos faz tão mal. Até coisas simples como uma dor na garganta. Mas nem sempre a atenção dos pais vem nesse momento. Ao contrário, muitas vezes eles próprios ficam irritados, sem saber o que fazer.

E envelhecer, ver o tempo passar? O envelhecimento por si só pode ser algo bastante traumático para qualquer pessoa. Principalmente para aquelas que sentem o tempo passar sendo levadas pelas circunstâncias. Um asperger, então, que tem muitas limitações para realizar seus objetivos, pode ficar muito confuso com o passar do tempo e nada de as coisas evoluírem. Isso mesmo: Ver a vida passar e os sonhos não se transformarem em realidade é cruel. Não podemos deixar isso acontecer. O importante é dar um passo de cada vez e comemorar cada vitória. E daí, se um asperger consegue tomar um ônibus sozinho só aos 18 anos? Isso deve ser comemorado.

Por fim, a morte é imutável. Mas se ficarmos sempre pensando nela, como o asperger tem a tendência de criar regras, podemos perder a oportunidade de fazer a diferença no momento presente. Além disso, precisamos também estar preparados para nos virar em caso de perdermos alguém responsável por nós. Mas é possível para o asperger ser independente?

Recorro novamente à filosofia budista, que também apresenta as quatro virtudes: verdadeiro eu, eternidade, pureza e felicidade. O verdadeiro eu é um estado em que as circunstâncias externas são utilizadas como combustível para revelar o que temos de melhor dentro de nós. Todos os traumas que sofri na vida moldaram meu caráter a ponto de eu conseguir criar crônicas sobre o assunto hoje. Quão libertador foi quando descobri esse conceito de “eternidade”. Se a vida está em constante transformação, o que ontem me arrancou tanto sofrimento hoje não me afeta mais. A vida segue. Então para que me desgastar tanto?

Já na pureza a gente não se deixa levar pelas corrupções do mundo. É preciso que o asperger trabalhe a empatia, nem que seja, num primeiro momento, através de explicações concretas. Assim, serão trabalhadas também a gratidão e a sensibilidade. Quando temos todos esses três elementos em dia, podemos conquistar a felicidade. Que não é apenas uma alegria passageira. Tirando os quatro sofrimentos, que são as quatro verdades, de resto tudo no mundo muda e se transforma. Mas se alcançamos um estado de vida mais elevado, conseguiremos passar de forma vitoriosa por todas as dificuldades, transformando sempre, o veneno em remédio.

Confira também o áudio aqui!

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. É estudante de jornalismo pelo UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. É também assistente de produção do programa Fala Comigo, da Rádio Itatiaia. victormendonca97@hotmail.com

Anúncios