Após queda de prótese, paratleta de 15 anos completa 100m livres aos pulos

Gabriel Neris disputava Circuito Paralímpico de São Paulo e emocionou o público

Desistir é verbo não conjugado, palavra ausente do vocabulário do paratleta Gabriel Neris. Se era necessário uma prova disso, o garoto de 15 anos emocionou quem o acompanhava, sábado, na final dos 100 metros rasos no Circuito Paralímpico de São Paulo, no Parque Ibirapuera.

Daniel Zappe/CPB/MPIX

Logo nos primeiros 10 metros da prova, a prótese de Gabriel se soltou, o que o fez cair na pista. O rapaz se levantou e seguiu em frente, aos pulos, diante dos aplausos de mais de 300 pessoas. “Não pensei em desistir. Fiquei emocionado, porque eu achei que não completaria 90 metros com uma só perna, mas aconteceu na hora e eu consegui”, relatou, por telefone, ao Correio.

O jovem atleta de Bady Bassitt, município com menos de 15 mil habitantes que surgiu à sombra de São José do Rio Preto, viaja para a cidade grande ao menos duas vezes por semana para treinar no Clube Amigos dos Deficientes (CAD).

O coordenador técnico do CAD, Octavio Paula, estava no Ibirapuera quando a prótese de Gabriel se soltou. “Achei que ele pararia naquela hora. Mas segurou a prótese na mão e continuou. Parecia um comercial de televisão”, descreve. Ao cruzar a linha de chegada, bem depois dos demais competidores, o rapaz foi recebido com festa pelos quatro que conseguiram completá-la — entre eles, o campeão mundial da prova, Alan Fonteles.

O dia só não foi completo porque nem tempo Gabriel pôde marcar: ele acabou desclassificado pelo fato de a prótese ter caído fora da raia na qual ele competia. O contratempo, porém, não o impediu de levar medalhas para casa nas outras provas que disputou, uma prata no salto em distância e um ouro no salto em altura. Mas isso é o de menos. Nos bastidores, o garoto admitiu ao treinador, Flávio dos Santos Silva, ter sido “muito melhor completar a prova do que ganhar a medalha”. “O que ele queria mesmo era competir”, comenta.

Dificuldades

Gabriel Neris nasceu sem a tíbia e a rótula do joelho direito. Os médicos decidiram amputar a perna deficiente dois anos depois. O foco na atividade física surgiu da recomendação de uma médica, e assim o rapaz pisou pela primeira vez no Clube Amigos dos Deficientes (CAD) aos 8 anos. Desde então, completa em um ônibus da prefeitura os 10km entre a casa em que mora, em Bady Bassitt (SP), e o centro de treinamento, em São José do Rio Preto (SP).

A trajetória do garoto é acompanhada pelo treinador Flávio dos Santos Silva. “O Gabriel tem uma força de vontade que outras pessoas não têm. Ele é pontual, faz o que eu mando e nunca reclama. O que houve em São Paulo é o que ele demonstra no treino, de não desistir nunca”, comenta.

Com uma prótese comum, que deveria ser utilizada apenas nas atividades do dia a dia, Gabriel pratica atletismo e compete em mais de uma prova. Só quando ele ultrapassar os 50kg é que vai receber uma prótese própria para corrida, esta mais cara. Até lá, treina sem a perna mecânica, para não se machucar. Para melhorar velocidade e fortalecimento, ele se exercita na bicicleta e faz musculação.

“Eu dou muito incentivo, mas ele não precisa disso. A força de vontade vai dele mesmo”, celebra a mãe, Cláudia Neris. No caso dela, a emoção teve de ser vivida a distância. Como ela não estava no Ibirapuera, só pôde ver o feito do filho de 15 anos quando recebeu as primeiras fotos.

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