Como lidar com um cérebro hiperexcitado, Mundo Asperger, por Victor Arthur Silva de Mendonça

fotoMuitos neurotípicos acreditam ser capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Pura ilusão. É a agilidade com que eles cumprem uma atividade antes de passar para a outra que causa essa impressão. No caso dos aspergers é diferente. Nós realmente conseguimos pensar e fazer tantas coisas ao mesmo tempo, que isso pode se tornar um peso insuportável. Nosso cérebro é hiperexcitado. Ou seja, ele está sempre ligado em muitos pensamentos numa espécie de compulsão. Esse é um dos aspectos mais dolorosos da síndrome. É como se você não conseguisse relaxar nunca!

Por isso, a busca pela paz interior é uma constante. Nem sempre vamos conseguir. Mas quanto mais persistimos, mais chances temos de nos manter equilibrados e felizes por mais tempo. Na verdade, tanto o sofrimento quanto a alegria fazem parte da vida. Não há como fugir deles. Então o que nos resta a fazer é trabalhar os momentos mais complicados e transformá-los num trampolim para dias melhores.

No começo, minha principal estratégia para combater as madrugadas insones e o turbilhão insuportável de pensamentos era o rivotril. Achava aquilo mágico e comecei, inclusive, a tomar sem que minha mãe soubesse. Na época em que tomava em gotas, abusava e adorava. Minha intenção, no entanto, passa longe de fazer apologia ao remédio. Por mais libertador que fosse para mim tomá-lo, e eu reconheço que em alguns momentos ele é necessário, os efeitos colaterais eram devastadores. Agia como zumbi nos dias posteriores e entrei em um período terrível de vício. Cheguei a ultrapassar cem gotas. Tudo para tentar me livrar dos sofrimentos. Não, não era isso que eu queria para mim. Até porque não resolvia a situação. Minha mãe conversou com meu psiquiatra e ele me alertou sobre os sérios riscos à memória. Percebi que o remédio era recurso apenas nos casos extremos.

Então o que fazer? Não é por acaso que o hiperfoco existe em todos os aspergers. A gente precisa agarrar alguma coisa para preencher nosso tempo vago. E é bom fazer algo prazeroso dentro da nossa área de interesse. Mas ficar preso a isso, de certa forma, nos escraviza. Portanto, sair um pouco dessa rotina, sempre respeitando os limites da síndrome, também ajuda a driblar a ansiedade e o estresse. Mas como agir se é tão difícil para um asperger sair do previsível?

O único caminho a seguir, nesse caso, é enxergar as adversidades não como obstáculos, mas como desafios a serem superados. Essa reeducação passa pela ação da família que deve preparar as pessoas que convivem com o asperger a lidar com as limitações dele. Elas vão errar? Claro que vão. Haverá gente despreparada? Claro que sim. Porém, os acertos vão fazer toda a diferença. Conhecendo as dores e delícias da vida, o asperger vai se fortalecendo. Isso, de forma alguma, significa jogá-lo ao mundo à própria sorte. É importante ter parceiros, seja na escola ou em qualquer lugar, que procurem entender as particularidades do asperger. Vivemos em uma sociedade, e se ela ainda não está apta a lidar com o diferente, esse me parece ser o momento perfeito para transformar a dificuldade em missão. Ou seja, tocar o coração das pessoas e deixar nossa contribuição para construir um mundo melhor para todos, inclusive para quem é diferente.

Confira o áudio desta coluna aqui!

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. É estudante de jornalismo pelo UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. É também assistente de produção do programa Fala Comigo, da Rádio Itatiaia. victormendonca97@hotmail.com

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