Mundo Asperger: É conversando que se desfazem os rótulos, por Victor Arthur Silva de Mendonça

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Uma coisa difícil para quem tem asperger é lidar com a incompreensão alheia. Para a imensa maioria das pessoas é mais fácil rotular uma criança como “sem educação” do que procurar entender o que levou esse menino ou menina a agir de modo interpretado como grosseiro. No caso dos aspergers, como a autopercepção não é boa, coisas como um simples atraso ou imprevisto podem desencadear um estresse muito grande. E como consequência vem um mau humor que os neurotípicos não conseguem, (ou sequer tentam), perceber de onde surgiu. Daí, começam as brigas e crises. E num ciclo vicioso, tudo passa a se repetir. O que os aspergers e seus familiares desejam é sair disso. Mas como?

As pessoas precisam conhecer as regras do jogo quando se trata de lidar com um asperger. Sabendo disso, algumas irão procurar acertar, mas outras não. É por isso que, quando não se pode contar com o neurotípico, é importante que o aspie tenha consciência e força para mostrar que é muito mais do que os rótulos que a sociedade coloca nele.

Confio mais em aspergers para entender neurotípicos do que o contrário. A maioria das pessoas sem transtornos mentais tem dificuldades de lidar com o que não faz parte de seu próprio mundo de conhecimentos. Por isso, julgam aquilo que é desconhecido com base em suas próprias certezas, acumuladas na bagagem que carregam. É importante lembrar que mesmo quem não tem qualquer síndrome também possui suas marcas e traumas. E mais por ingenuidade do que por falta de empatia, o asperger pode ser a pessoa a cutucar essas feridas.

O asperger é como um extraterrestre que aterrissou no nosso planeta e vai ter que se adaptar a esse estranho mundo. Isso independe de sua vontade. O que não significa, de maneira alguma, enquadrar o autista para forçá-lo a ter uma vida normal aos olhos de todos. A adaptação está mais ligada à busca de um convívio pacífico com quem é diferente.

Uma das características perigosas da síndrome é a facilidade de apreender regras. Se um asperger convive com a rejeição desde cedo, o trauma pode ser difícil de ser desfeito. Ele pode parar, inclusive, de confiar nas pessoas. Por outro lado, se o autista é estimulado a entender a linha de pensamento dos neurotípicos, mesmo sem concordar nem um pouco, ele vai conseguir atingir um equilíbrio maior que não o faça ceder às provocações dos outros. Assim, terá a chance de superar as expectativas alheias e mostrar qualidades que seus críticos nem imaginavam existir.

Ouça a coluna Mundo Asperger aqui!

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. É estudante de jornalismo pelo UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. É também assistente de produção do programa Fala Comigo, da Rádio Itatiaia. victormendonca97@hotmail.com

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