O pai na vida do asperger, Mundo Asperger, por Victor Arthur Silva de Mendonça

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Conflitos são comuns em todas as relações envolvendo pais e filhos, não importando quais sejam as particularidades. No caso dos aspergers essa ligação se torna ainda mais forte, ou ainda mais conflituosa. As pessoas que possuem a síndrome, quando mais novas, são muito mais dependentes de seus pais que outras crianças. Se a sociedade em geral é muito criticada, inclusive por mim, por não saber lidar com quem tem alguma necessidade especial, seria diferente com nossos pais? Podemos cobrar deles que entendam 100% como o cérebro aspie funciona?

O diferencial de um pai de asperger está no desejo em aprender como funciona a regra do jogo para tentar oferecer ao filho a oportunidade de criar força para se levantar e construir uma vida vitoriosa. Tenho muita gratidão por minha mãe, que com seu jeito firme sempre esteve ao meu lado na luta pelos meus direitos, sem nunca passar a mão em minha cabeça. Por mais difícil que seja aguentar a minha instabilidade 24 horas por dia, e mesmo que a gente brigue às vezes, ela sempre esteve comigo. É fácil ter gratidão por ela. Difícil mesmo foi nutrir esse sentimento pelo meu pai.

E é aqui que entro na questão do entendimento que expus anteriormente. A ficha do meu pai custou a cair para aceitar que eu tinha algo diferente, mesmo depois do diagnóstico. A fase de negação foi longa, durou anos após o divórcio que veio quase ao mesmo tempo que a separação. Para ele, eu era apenas um menino mal criado e inteligente. Depois que ele foi morar em outra casa, ele se afastou de mim e se eu não tivesse insistido tanto, talvez eu nunca tivesse recuperado sua companhia. Mesmo que seja para uma ligação telefônica ou uma visita no fim de semana.

Hoje, eu tenho consciência de que mesmo que eu esteja precisando de ajuda para algo grave, seria ingenuidade entrar em contato com ele. Não por desprezo ou maldade. Por limitação mesmo. A figura paterna tem, na maioria das vezes, atuação controversa diante da descoberta do filho diferente. Mas ainda assim, eu tenho uma enorme gratidão a meu pai e cada minuto que passamos juntos é precioso. Finalmente, hoje me libertei das amarras de precisar, inclusive emocionalmente, de alguém que não poderia me oferecer o que eu queria e até mesmo precisava. Enxergar claramente isso, que eu não teria ele como eu tenho minha mãe, por exemplo, me ajudou bastante. Por mais que eu sinta falta de uma presença maior de meu pai, eu percebi que ele tem suas próprias limitações. É assim, cada um é cada um, não é mesmo?

Se eu não posso transformar o meu pai em alguém que ele não é, assim com não quero que me cobrem agir como um neurotípico, sendo asperger, o mais equilibrado é ter a melhor relação com ele de um jeito que seja bom para nós dois. O diálogo, aqui também, é a solução para não forçar a barra, mas também para exigir que ele sempre procure me entender do jeito que eu sou. É uma via de mão dupla. Sei que se eu buscar me conectar às várias qualidades que meu pai tem, ele também vai descobrir que há muito mais em mim do que rótulos. E foi o que aconteceu.

Sei também que, assim como o meu pai, existem muitos outros pais que não conseguem compreender, ou não têm força para lidar com as dimensões da síndrome. Acredito que a relação entre eles e os filhos não deva ser imposta, mas precisam entender as obrigações como pais. E isso inclui o afeto, cada um à sua maneira. Por mais distintas que as pessoas possam ser, devemos sempre buscar conviver e aprender com essas diferenças. É isso que tenho feito com meu pai. Aprendemos muito um com o outro. E é com a coexistência harmoniosa entre personalidades tão díspares que temos uma troca mútua de aprendizado, construindo um mundo melhor, O amor ainda é a melhor resposta!

*Victor Arthur Silva de Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. É estudante de jornalismo pelo UniBH e possui uma coluna sobre cinema na Revista Estrada da Serra. victormendonca97@hotmail.com

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