O looping das emoções, Mundo Asperger, por Victor Mendonça

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O budismo Nichiren me ensinou que a personalidade de uma pessoa pode refletir dez estados de vida diferentes. Todos experimentam esses estados, embora eles não sejam nem degraus a serem escalados e sim uma espécie de oscilação de nosso humor. Isso independe da condição de vida que cada um se encontra. A maneira como recebemos impressões do mundo ao nosso redor muda de forma radical conforme nosso estado de vida.

Ser humano é uma batalha diária para elevar o estado de vida. No caso do asperger, mais ainda. Quem tem essa síndrome é sempre muito instável, e por isso mesmo propenso a cair nos piores caminhos do humor. O mais baixo é chamado de estado de Inferno. O nome assusta, mas é um estado muito fácil de ser encontrado em famílias aspergers. Principalmente naquele momento de crise, marcado pela agressividade, em que qualquer palavra dita pela mãe ou o filho tem uma repercussão negativa incontrolável. É um momento em que nada parece ter solução.

Outro estado que considero frequente no asperger é o de Fome. Ele é caracterizado por viver em função dos próprios desejos. Vejo isso como um hiperfoco que não seja canalizado para algo produtivo. Acontece quando o aspie está sempre em busca de algo, como o cachorro que fica o tempo tyodo correndo atrás do próprio rabo. Existe ainda, o estado de animalidade. Ainda bem, não vemos tão facilmente um aspie agindo nesse estado. Nele, a pessoa pisa em quem ela julga inferior e bajula os superiores. A autenticidade é a nossa marca, mas e quando ela se converte no estado de Ira? Passamos a usar, desta vez de maneira consciente, a agressividade como veículo para externar a nossa raiva. Mas nada é um mal em si. Ghandi manifestou o estado de Ira dentro de outro mais elevado e utilizou somente a energia da raiva para protestar contra a violência de maneira pacífica. Podemos fazer o mesmo.

Por vivermos nesse mundo de surtos, depressão e ansiedade, almejamos a tranquilidade e a alegria. O problema é que momentos assim podem ser destruídos pelos ventos ao nosso redor. Os chamados fatores externos. Não é somente de momentos alegres, como quando estamos assistindo ao nosso programa preferido que precisamos. Afinal, se qualquer incômodo provocar uma crise, já era essa aparente felicidade.

A erudição é um estado interessante para o asperger. Nele, ele pode fazer proveito de seu hiperfoco e extrair um grande aprendizado. Mais interessante ainda é quando, no estado de absorção, o aspie passa a utilizar isso que ele aprendeu como forma de fazer a diferença. Seja na própria vida, ou na vida de outras pessoas. Sim, porque também precisamos ser bons para os outros. E o asperger que atinge o estado Bodisatva tem plena consciência disso. Quando vejo palestrantes autistas, é nisso que eu penso. Esse é o estado em que aprendemos que nossa missão é servir o próximo.

Estamos sempre oscilando entre vários estados. As características de um estado negativo não deixam de existir no estado positivo, mas muda a forma de manifestar. Quando atingimos o estado de Buda, ou da Iluminação, conseguimos desenvolver consciência e força para fazermos as melhores escolhas. É assim que nos mantemos firmes mesmo nos momentos mais complicados. O asperger, para transformar sua vida e o que está ao redor, precisa escolher sua área de interesse e uma forma de canalizar sua força. Podemos até fraquejar em alguns momentos, mas a vitória ao final é infalível.

Link do áudio: http://tudouni.unibh.br/mundo-asperger-o-looping-das-emocoes/

*Victor Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Atualmente, estuda jornalismo no UniBH e é colunista e repórter da Revista Estrada da Serra. victormendonca97@hotmail.com

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