Parece simples, mas não é, Mundo Asperger, por Victor Mendonça

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Fui convidado para um Fórum promovido pela Divisão de Universitários da Ong Soka Gakkai Internacional, da qual faço parte, que trata de assuntos ligados à paz, educação e cultura. Um fato corriqueiro na vida de qualquer pessoa, mas não para um asperger.

É que nós, aspergers, precisamos ter tudo muito bem traçado em nossa mente. O novo pode nos apavorar. Assim, a primeira coisa a saber é como funciona esse tipo de Fórum. Isso porque ele é diferente das reuniões as quais estou acostumado a participar. Então, qual o formato, quem irá, como serão ministradas as palestras? Sem essas informações um asperger pode entrar em pânico.

Aí é que vem o desafio. Existe quem esteja disposto a nos fornecer detalhes que parecem óbvios e que entendam a aparente paralisação diante da pergunta ‘vai ou não vai’? Por isso, é tão importante que as pessoas mais próximas nos conheçam e tenham tolerância para nos fazer um simples convite, de maneira mais detalhada. Não somos todo mundo, somos aspergers e nos comunicamos de maneira diferente.

É bem verdade, que o aspie acaba desenvolvendo mecanismos próprios para decodificar o mundo à sua volta. Não, isso não é impossível. Mas o preço costuma ser alto. Um cansaço que beira à exaustão. Sem contar que, vencida essa primeira etapa, e lá estando no evento, vêm os outros desafios: muita gente, conteúdo maravilhoso, mas a forma nem tanto. A reunião acaba se estendendo o que pode ser fatal para nosso equilíbrio. Mais uma vez vem a necessidade dos malabarismos para se adaptar a um mundo que teima em ser muito diferente. Aí, o pior. As conversas intermináveis de minha mãe, os amigos, tudo que seria maravilhoso se não trouxesse uma incomoda sensação de ‘estou sobrando’. Para o neurotípico essa sensação já é difícil de administrar. Para o asperger é impossível. Daí, o que deveria ser um programa interessante pode acabar em uma briga de família.

Mas estamos no mundo não só para viver, mas para conviver, não é mesmo? Então a velha técnica de respirar fundo, oxigenar o cérebro e exercitar a tolerância para o bem de quem nos cerca costuma funcionar. Só uma coisa não dá para mudar: o desgaste que cumprir tarefas aparentemente simples gera no asperger. Mas, como dizem, é a vida. E se é pra vivê-la, vamos viver com sabedoria. Amanhã sempre é um novo dia!

Link do áudio: http://tudouni.unibh.br/mundo-asperger/

*Victor Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Atualmente, estuda jornalismo no UniBH e é colunista e repórter da Revista Estrada da Serra. victormendonca97@hotmail.com

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