Entender primeiro, ser entendido depois, Mundo Asperger, por Victor Mendonça

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Quando minha mãe recebeu meu diagnóstico ela perguntou ao psiquiatra: “E agora, qual será o próximo passo?” O médico respondeu prontamente: “Estudar e procurar saber mais sobre a síndrome. A linguagem é diferente. A maneira como eles percebem o mundo também.” Minha mãe ficou confusa, e o psiquiatra continuou: “o cérebro do aspie é lógico, concreto. Se quer saber algo dele não adianta perguntar: ‘como você está se sentido’? Tem de dizer: ‘o que você está pensando?’” Complicado, não?

Pois bem. Receber e expressar a linguagem e vocabulário pode ser difícil para o autista, Não é que ele não escute direito. Ele não compreende mesmo. Para falar com o asperger é preciso ter vocabulário direto e simples.

Me lembro de uma vez em que meu padrasto me perguntou: ‘Esse é o melhor cachorro quente que você já comeu, não é?’ Como eu demorei a responder, ele se irritou e disse: ‘É tão difícil responder sim ou não?’ Minha mãe veio me salvar e disse. ‘É sim. Ao fazer a pergunta assim para o Victor, ele começa a pensar em todos os cachorros quentes que ele já experimentou, para comparar. E se ele não se lembra de algum que possa ter comido na infância, isso pode levá-lo a responder de maneira equivocada já que ele não se lembra de todos. Para o asperger isso é muito ruim, pois a resposta deve ser totalmente correta.’

Outra coisa, dizem que o asperger não tem empatia. Não é bem assim. Mais uma vez, é uma questão de interpretação. Lembro um dia em que percebi minha mãe mais pensativa. Perguntei por que ela estava assim e ela respondeu que nosso vizinho tinha morrido Ele suicidou. Disse a ela ‘e daí? O suicídio leva à morte mesmo’. Minha mãe então me explicou que ele era um cara jovem, que deixava mulher e dois filhos pequenos. Quando ela me explicou tudo isso, aí sim, percebi o quão triste era aquela notícia. A morte como consequência do suicídio é obvia para o autista, as consequências dela não.

Outra coisa: nem sempre é fácil para encontrar as palavras certas para descrever o que está sentindo. Coisas do tipo: estar com fome, frustrado, com medo e confuso. Então, como não conseguimos nos expressar, fica só a irritação, que pode levar a uma crise. Essa situação é mais comum para crianças autistas. Com o tempo, nossa percepção vai melhorando. Por isso, é preciso ficar atento à linguagem do corpo (retração, agitação ou outros sinais de que algo está errado).

Por outro lado, a criança asperger pode parecer um pequeno professor ou um artista de cinema dizendo palavras acima da capacidade da idade dela. Na verdade, são palavras memorizadas do mundo ao redor para compensar a deficiência na linguagem. Isso é chamado de ECOLALIA. Não precisa compreender o contexto das palavras para usar. O autista só sabe que deve dizer alguma coisa.

Por isso, vale a pena mostrar ao autista como fazer alguma coisa ao invés de simplesmente dizer o que fazer. Repetições consistentes ajudam a compreensão. Um esquema visual auxilia no dia-a-dia porque alivia do stress de ter que lembrar o que vai acontecer. Além disso, controla o tempo gasto para fazer todas as atividades.

Difícil? Pode até ser. Mas nada é impossível com uma boa dose de carinho e a certeza de que não se educa somente seres humanos. Pais e mães educam valores humanos para a construção de um mundo melhor.

*Victor Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Atualmente, estuda jornalismo no UniBH e é colunista e repórter da Revista Estrada da Serra. victormendonca97@hotmail.com https://www.facebook.com/omundoasperger?fref=ts

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