O Asperger e a Miopia, por Victor Mendonça, Mundo Asperger

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Ser asperger requer um esforço muito grande para realizar coisas simples como juntar palavras para dizer uma frase, por exemplo. Para o aspie, tudo no mundo tem que ser decodificado, processado, entendido para que depois ocorra a ação. Não é automático, como para as outras pessoas. Então, imagine se além de tudo isso, o autista ainda apresenta uma perspectiva distorcida do mundo ao redor devido a um problema de visão? Esse processo de decodificação se torna ainda mais sofrido.

Eu descobri que era míope e autista quase ao mesmo tempo, aos onze anos. O curioso com relação a isso é que eu já apresentava ambas as limitações muito antes de encontrar os profissionais capacitados para me darem o diagnóstico. Nesse primeiro momento, quando um transtorno como um desses dois é descoberto ainda na infância, não cabe a quem tem a doença se tratar. É a mãe, pai ou responsável que deve procurar estudar sobre o assunto e, assim, verificar as melhores providências.

O processo de descoberta é complicado para eles. No caso do autismo, a negação logo após o diagnóstico é uma regra. No meu caso, ainda venho de uma família muito traumatizada com experiências relacionadas a lentes de contato e cirurgias no olho. Foi complicado para minha mãe assimilar os dois diagnósticos. Mas, ao seu tempo, e ainda bem que não foi um tempo muito demorado, ela aceitou. Quando minha mãe venceu o próprio medo, eu pude receber tratamento adequado e, mais ainda, me espelhar na coragem para a qual ela havia despertado.

Agora, sete anos depois de saber que era míope, passei por uma cirurgia que me libertou dos 14 graus de miopia. Sou grato ao Dr. Etelvino Coelho, que sempre me acompanhou, com generosidade, competência e sensibilidade aguçadas, além de tecnologia apurada. Ele me operou me deixando, ao final da cirurgia, com uma qualidade de visão que eu nunca tive antes. Não poderia deixar de ser grato também, às adoráveis e competentes assistentes Rose e Aline, que vão além do tratar bem apenas por educação. Valeu demais!

No budismo, há um conceito que eu gosto muito chamado ”Hosshaku Kempon”, que significa abandonar o transitório e revelar o verdadeiro. Descobrir a miopia e ao autismo foram fundamentais para que eu agilizasse a minha Revolução Humana. Isso porque, com o tempo, pude abandonar a manta de negação em que me envolvi até abraçar por completo a minha verdadeira identidade de autista. Além disso, por mais que a Síndrome de Asperger jamais deixe de fazer parte de mim, a cada dia me torno mais senhor da minha mente, preparado para não cair em armadilhas ditadas por meu cérebro.

Link do áudio: http://tudouni.unibh.br/mundo-asperger-o-asperger-e-a-miopia/

*Victor Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Atualmente, estuda jornalismo no UniBH e é colunista e repórter da Revista Estrada da Serra. victormendonca97@hotmail.com https://www.facebook.com/omundoasperger?fref=ts

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