Vida de adulto – festas e socialização, Mundo Asperger, por Victor Mendonça

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Fui convidado para a festa de aniversário da minha amiga e colega aqui do Uni, Renata Leal. Não pensei duas vezes antes de confirmar minha presença. O aspie não é diferente de ninguém nesse ponto. Ele quer dividir os momentos felizes com os amigos. O problema é que muitas vezes não acreditamos dar conta de ir ou permanecer numa festa. Depois de ter aceitado o convite, comecei a considerar os fatos, tudo que poderia ser surpresa e percebi um agravante nessa situação. É que justamente essa festa marcaria um momento de transição. Constatei que os docinhos e salgadinhos da infância e adolescência haviam ficado para trás. O que me esperava era novidade. E o novo assusta e pode paralisar o asperger. O que é maior do que o medo do imprevisível? A força de uma amizade sincera e a vontade de vencer os próprios limites. Então… eu fui.

Como minha mãe não é muito boa quando o assunto é andar por bairros que ela não conhece, concordamos que se ela me levasse à festa só traria ansiedade. Depois de outras festas, ela já confia que eu vá sozinho, de táxi. Tenho treinado ser mais independente. Andei de ônibus pela primeira vez aos dezoito anos. Por isso, o taxi seria a melhor opção. Mas eu peguei um taxista que não sabia o caminho e parava toda hora para pedir informação. Estranho ele não ter sequer GPS. Recitei meu mantra budista mentalmente. Consegui manter o equilíbrio.

Ao chegar, notei a felicidade de minha amiga ao me ver. Ela me sugeriu um lugar para ficar nos momentos em que o barulho me incomodasse. O ambiente da festa não é o que se espera para um autista. Havia muitas luzes piscando e banda ao vivo com som alto. Senti certo incômodo por isso. Percebi que não poderia conversar muito, embora até tenha feito isso às vezes. Tirava fotos, dançava e de vez em quando recuava um pouco.

O clima alegre e o zelo com que fui tratado fizeram eu me sentir em casa. Não fiquei até o final. Chega uma hora em que o asperger não aguenta mais tanta informação sensorial. No tempo em que fiquei lá, porém, eu só tive ganhos, não apenas porque foi muito divertido. Também foi mais que um simples romper de barreiras. Quando alguém convida um autista para uma festa, essa pessoa está ciente das limitações dele. Então, o desejo de que ele vá é real. Essa experiência me serviu de prova de que posso sim, comemorar momentos felizes com meus amigos. O que poderia ser apenas uma simples festa se tornou em mais um passo importante para o meu crescimento.

Link do áudio: http://tudouni.unibh.br/mundo-asperger-vida-de-adulto-festas-e-socializacao/

*Victor Mendonça tem 18 anos, possui a síndrome de asperger, diagnosticada aos 11 anos. Atualmente, estuda jornalismo no UniBH e é colunista e repórter da Revista Estrada da Serra. victormendonca97@hotmail.com https://www.facebook.com/omundoasperger?fref=ts

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