O matadouro

Reginaldo José Horta*

 Bem próximo da casa onde nasci e passei minha infância existia um matadouro. O dono era um primo, que também possuía um açougue, e um dos meus irmãos mais velhos era o responsável pelo abate dos bois. Minha mãe não gostava dessa atividade do meu irmão e lembro-me bem de ouvi-la repetir que “quem tira pele dos bois sem a sua fica”, com o que ela queria dizer que aqueles que viviam da exploração dos animais estavam destinados a morrer na miséria. Eu então me perguntava por que tal castigo destinava-se apenas àqueles que matavam e lucravam com a morte, pois não entendia como nós outros, que comíamos daquela mesma carne, fossemos inocentes. Minha cabeça de criança acusou essa contradição dos adultos e minha memória afetiva guardou com detalhes as cenas que ali se passavam.

Por mais que os adultos se esforçassem por nos manter afastados daquele lugar, nossa curiosidade infantil nos impelia para lá. Foi assim que um dia assisti à morte de um desses grandes animais, o que nunca mais esqueci.

Era um enorme boi branco, com chifres pontiagudos e olhos pretos como jabuticabas. Ele foi conduzido por um estreito corredor de madeira, de modo que lhe era impossível recuar. Mais à frente, no final desse corredor, meu irmão o aguardava com o machado já suspenso. Ao vê-lo, o animal arregalou os olhos, começou a se debater, a bufar e a tentar voltar para trás. Mas alguém já o empurrava para a morte. Com as “costas” do machado, meu irmão assestou o golpe fatal na fronte daquele animal, fazendo-o cair com as pernas dianteiras dobradas, como que ajoelhado. Muitas vezes, um golpe apenas não era o suficiente, de modo que se seguiam várias machadadas até que o animal se prostrasse e caísse vencido aos pés do seu algoz.  Ainda respirando, o grande boi branco foi erguido com guinchos e cordas e com um enorme cutelo meu irmão fez um pequeno corte no seu flanco, donde jorrou um rio de sangue. Era a sangria.

Naquele dia, no almoço, não quis comer carne. Minha mãe, ao saber a razão da minha recusa, me disse que a carne era necessária para que eu crescesse forte e saudável. Também me explicou que Deus havia feito os bois, os porcos, as galinhas e alguns outros animais para que nos alimentássemos deles. Muitos anos depois descobri que, mesmo sem o saber, minha mãe repetia o velho argumento teleológico de Aristóteles segundo o qual tudo existe para um fim: a chuva para as plantas, as plantas para os animais e estes para o nosso uso e proveito. Não questionei o argumento. Continuei a comer carne. O processo de dessensibilização havia produzido seus efeitos.

Isso me faz refletir sobre o poder que possui a tradição de moldar nossa visão de mundo e sobre o quanto as crenças e preconceitos que nos são transmitidos desde a mais tenra infância exercem sobre nós uma força da qual é muito difícil nos desvencilharmos. O sociólogo Max Weber refletiu sobre este problema ao se perguntar até onde nós, atores humanos criativos, controlamos as condições das nossas próprias vidas. Para ele, se por um lado o indivíduo pode atuar de modo estritamente racional, orientado por fins ou por valores conscientemente escolhidos, por outro o mesmo indivíduo pode simplesmente agir no limite da ação com sentido, simplesmente reagindo a estímulos habituais, determinados pelas crenças e pelos costumes arraigados.

Penso que durante muitos anos minha atitude para com os animais se conformou àquilo que Weber chamou de ação tradicional. Eu simplesmente acatava e reproduzia, sem problematiza-las, as supostas verdades que me eram transmitidas pela tradição. Ao fazê-lo, eu tanto me punha a salvo de questionamentos incômodos quanto podia conviver de modo relativamente pacífico com as lembranças do matadouro da minha infância.

No entanto, um dia chega a idade da razão e, com ela, a necessidade premente de avaliar criticamente nossas crenças e costumes. Para mim, embora nesse caso tardiamente, ela chegou na forma de um documentário e de um livro. Ambos me levaram a questionar muitas de minhas crenças e a mudar algumas das minhas atitudes até então tidas como “naturais”. Foi assim que aquele enorme boi branco ajoelhado diante do machado que o matou e cuja imagem ficou cristalizada em minha memória cumpriu o seu papel. Desde então, nunca mais pude ler esses versos de Brecht sem me lembrar de seus grandes olhos negros: “Nós vos pedimos com insistência:/Nunca digam – Isso é natural./Diante dos acontecimentos de cada dia./Numa época em que reina a confusão,/Em que corre o sangue,/Em que se ordena a desordem,/Em que o arbitrário tem força de lei,/Em que a humanidade se desumaniza…/Não digam nunca: Isso é natural./A fim de que nada passa por ser imutável./Sob o familiar, descubram o insólito./Sob o cotidiano, desvelem o inexplicável./Que tudo que seja dito habitual/Cause inquietação.”

 

57d9793f-b0bd-46b8-af94-74ba4df07379Meu nome é Reginaldo José Horta. Tenho especial orgulho de trazer no meu sobrenome o nome do meu pai. Nasci na pequena cidade de Jeceaba, no interior de Minas. Ainda muito cedo, aos 14 anos, entrei para o Seminário, aos pés da Serra do Caraça. Ali iniciei minha formação religiosa e intelectual. Em 2000 entrei para o curso de Filosofia, onde descobri minha verdadeira vocação (que não era de padre). A leitura de Spinoza e Nietzsche me libertou de meus temores e preconceitos religiosos. Deixei o Seminário, me tornei professor, me casei. Há alguns anos minha esposa e eu nos tornamos vegetarianos por respeito aos animais. Minhas pesquisas sobre Ética Aplicada me levaram a abordar a questão dos animais na Filosofia, o que deu origem à minha dissertação de mestrado defendida em 2015 e recentemente publicada em livro. Vivo em Belo Horizonte e divido meu tempo entre minhas pesquisas, minhas aulas, meus livros e meus amigos, humanos e não humanos.

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