Grito por empatia

Logo Humaniza UFMG

#ParaTodosVerem Logo do projeto tem o contorno roxo de um homem com uma mão em formato de coração. Abaixo, o texto Humaniza, em branco. Mais abaixo, o texto UFMG, também em branco. O fundo do cartaz é verde.

Falar sobre saúde mental ainda é tabu na nossa sociedade. Aprendemos que depressão, crises de ansiedade e estresse, por exemplo, são sinônimos de fraqueza ou fantasias da cabeça, coisas que não existem. Muitos dizem por aí:

– “Ah, isso é frescura de fulano!”; “ciclano não tem vontade de fazer nada, porque é preguiçoso!”.

Esses comentários são tão arraigados em um pensamento coletivo, que até mesmo “ciclano e fulano” passam a acreditar mais neles que nos próprios sentimentos.

Com isso, a dificuldade para pedir socorro aumenta.

– “Procurar ajuda? Pra que, se é coisa da minha cabeça e devo sair disso sozinho?”

Por isso, o isolamento se torna comum aos que sofrem, seja para fugir dos julgamentos alheios, por acreditar que ninguém é capaz de ajudar, ou simplesmente porque a ajuda não é oferecida.

No “Projeto Humaniza UFMG”, trabalho de conclusão de curso que desenvolvo em parceria com a estudante de Comunicação Social, Luiza Prado, percebo que a incompreensão é inimiga número um da saúde mental. Em diversos depoimentos que colhemos de pessoas que sofrem ou já passaram por algum tipo de sofrimento psíquico, a dificuldade em ser compreendido e acolhido é sentimento comum à maioria. Alguns já tinham a percepção de que sair de tal condição, sem ajuda, seria missão impossível, que nem mesmo o famoso personagem James Bond, o Agente da série de cinema 007, daria conta.

A maioria dos entrevistados por nós relata as dificuldades de receber ajuda e acolhimento no universo acadêmico. Outros, apesar de conscientes das feridas que carregam, sentem que nada e ninguém vai ajudar a cicatrizá-las.

– “É uma batalha que precisa ser vencida sozinha”, lastimam.

Não, não precisa! De fato, nem todos vão compreender, principalmente aqueles que nunca passaram por uma situação de sofrimento parecida. Ter empatia, isto é, sentir como o outro, é mais difícil para quem nunca vivenciou o sofrimento mental. Além disso, a ciência explica que para compreender a emoção do outro é preciso conhecer e entender o que se passa dentro da própria cabeça.  Ora, muitas vezes somos estranhos a nós mesmos! Então, como fazer para entender o sentimento do outro?

O estigma é outra barreira para o acolhimento. E, para combatê-lo, aprendi com o “Projeto Humaniza UFMG”, que são necessários dois movimentos importantes: a escuta e a fala. Essas duas armas, sim, são dignas de James Bond. Quando escutamos verdadeiramente o outro, estamos acolhendo, humanizando as relações, criando afetos.

Bom, pelo menos foi isso que senti durante as gravações dos depoimentos para o nosso projeto. Mesmo estando ali prioritariamente para fins acadêmicos, o que nos exige um certo distanciamento em relação aos participantes, a nossa simples postura de escuta, por meio das filmagens, pareceu afetar de alguma forma a vida daquelas pessoas. Muitas se sentiram compreendidas somente pelo fato de alguém ter parado para ouvi-las. Além do mais, saber que serão ouvidos por muitas outras pessoas que assistirão aos depoimentos também pareceu reconfortá-las de alguma maneira.

O próprio ato de narrarem seus problemas, colocarem para fora sentimentos reprimidos há anos, também se mostrou ser alento para esses participantes. Para a maioria, aquela era a primeira experiência de expressar seus sentimentos. E acharam esse exercício libertador. Isso porque narrar também é uma forma de elaborar e organizar as próprias emoções. É! Talvez Freud e a psicanálise possam explicar melhor…

Também me surpreendeu o fato de que nenhum participante quis o anonimato.  Todos optaram por deixar seus rostinhos bem visíveis na tela. E seria por protesto? Uma forma de causar desconforto com a presença e tudo o que ela evoca? Algo a se pensar…

Longe de mim querer ser entusiasta do vídeo como uma nova terapia do sofrimento mental. O que estou reforçando é apenas a necessidade de se quebrar o tabu sobre o tema, de eliminar estigmas, de nos sentarmos com a saúde mental à mesa e só sair de lá quando sua importância começar a ser compreendida. E, quem sabe assim a empatia possa até ganhar uns quilinhos a mais para ficar bem mais fortinha?

O “Projeto Humaniza UFMG” tem a pretensão de contribuir para esse banquete. Os ingredientes, o fogo e a inspiração para que esse objetivo seja alcançado, vêm dessas pessoas fortes e corajosas que toparam expor suas experiências.

Afinal, é preciso um basta! Não é possível que em um tão mundo globalizado, na era das multiplataformas de comunicação em tempo real, essas pessoas ainda continuem sem voz na sociedade.

O Projeto Humaniza UFMG é vinculado à Rádio Terceiro Andar, que exibe uma coluna sobre o trabalho. Espero que também se sintam abraçados por este projeto, que poderá ser acompanhada por aqui.

Sobre a colunista

 karlaKarla Scarmigliat é jornalista e aluna de graduação do curso Publicidade e Propaganda, na Comunicação Social da UFMG, e co-idealizadora do Projeto Humaniza UFMG. karlascarmigliat@gmail.com

O conteúdo e as opiniões aqui expressadas são de responsabilidade desta colunista.