Privilégios ou oportunidades?

*Fatine Oliveira

Dia 03 de dezembro é o internacional da pessoa com deficiência e tem sido difícil focar em um determinado assunto para discutir, pois todos são igualmente importantes e urgentes. Antes de me colocar diante deste computador, busquei revirar pautas, anotar ideias, mas agora que cá estou só consigo pensar em como minha idade tem me feito refletir as coisas.

Como toda pessoa com deficiência nascida nos anos 80/90 recebi um diagnóstico ligeiramente catastrófico que me permitia andar por este mundo até os sete anos. Aqui começou minha vida privilegiada. Em um lar estável com uma família carinhosa e humana, pude desenvolver minhas habilidades, estudar em boas escolas, fazer amigos e com o passar do tempo me formar e exercer minha profissão.

Tive oportunidade de me desafiar intelectualmente com livros, artes e música. Me apaixonei, decepcionei e fui decepcionada. Sofri de amor e vivi cada momento com intensidade. Conheci pessoas pela internet, fiz amizades sinceras e participei de projetos incríveis.

Durante minha vida passei pelos estágios da aceitação, já senti raiva “do destino”, busquei conforto na fé, descansei no acaso e me libertei com o feminismo. Aprendi tanto sobre minha deficiência com a experiência dos outros e em troca ofereci meu coração.

Pode parecer um tanto egoísta da minha parte usar este dia para falar de mim, porém quantas pessoas com deficiência podem dizer o mesmo sobre suas vidas?

No Brasil, infelizmente temos diversas pessoas que vivem em situação de miséria ou se veem presas em famílias super protetoras ou algozes. Estas são impossibilitadas de estudarem, terem amigos, se relacionar ou trabalhar. Tornam-se invisíveis não apenas para a sociedade, como também para si. Perdem a própria identidade.

Sem contar os diversos casos de relações abusivas ou estupros a mulheres com deficiência provocados por familiares. Diversos são os casos de violência sofrida e silenciada devida a própria incapacidade da pessoa em denunciar seja por ter uma deficiência severa ou por ser impedida de ter acesso aos meios de comunicação.

São tantas situações e como falei no começo deste texto, fica difícil focar em um só assunto em um dia feito para refletir sobre nossa vida. Talvez seja por este motivo que tenho pensado a respeito da minha idade. O que mudou nestes 33 anos?

Sugiro que hoje usemos o dia para pensar em nossos privilégios (caso você seja uma pessoa com uma história semelhante a minha), nas mudanças que tivemos e no que precisamos melhorar mais.

A luta, amigas e amigos, segue e está longe de acabar.

 

abd60-imagem-perfil-blog-disbugaFatine Oliveira é formada em Publicidade e Propaganda e trabalha como freelancer de direção de arte. Tem 30 anos (mas não precisa espalhar!), adora café, seriados, quadrinhos e uma boa conversa no boteco. 😀