Conflitos do desejo: sexualidade e deficiência como produção de mundos mais acessíveis

*Marco Antônio Gavério

 

É fato que a temática da <sexualidade da pessoa com deficiência> está cada vez mais na moda. São blogs, postagens, matérias, depoimentos, filmes, documentários e pesquisas acadêmicas que tem alçado, principalmente nos últimos 10 anos aqui no Brasil, essa temática ao conhecimento público. Ainda assim, sempre que as palavras sexo e deficiência são colocadas juntas numa mesma frase, o frisson que se causa aos mais desavisados e desavisadas é imenso. É uma constante novidade ao sensível público ver a transa discursiva entre sexo, sexualidade e deficiência. Alguns veem com espanto e incredulidade; outras se sentem curiosas e intrigadas. A <vontade de saber> coletiva de como esses corpos deficientes sentem prazer percorre o corpo daqueles e daquelas que se consideram <normais>, mesmo que de maneira contraditória. Mas será que essa visibilidade geradora de curiosidades tem, de fato, propiciado trocas relacionais efetivas entre corporalidades deficientes e não deficientes? Ou será que o sexo das pessoas com deficiência tem sido colonizado por uma certa ideia de que a sexualidade é um direito a ser exercido bem longe do gozo dos outros?

Não é raro encontrar relatos de pessoas com deficiência que, desde a infância e adolescência, são extremamente preteridas e rechaçadas nos relacionamentos afetivos e eróticos. São histórias em que principalmente a não conformação às normas de funcionamento corporal se traduzem em momentos precoce de solidão, de dúvida, de angústia e de <desencantamento do mundo>. Ao mesmo tempo, nossos corpos são alvo de intensa curiosidade e escrutínio público por onde passamos: olhares intrigados, espantados, receosos e penosos são alguns que constam nos cardápios interativos. Tudo é dito à distância: não se aproxime. Nesses momentos é muito difícil definirmos qual nosso local no mundo: hora parecemos bichinhos amestrados, fofinhos e divertidos, hora nos negam completamente outras formas de nos sentir e interagir socialmente. Me tomando como ilustração parcial, fui um adolescente que saiu muito pouco de casa, com poucos amigos e quase nenhuma vida erótica: beijei muito pouco e transei menos ainda. Eu me afundava nos livros e nas histórias em quadrinhos para combater um pouco as sensações quase raivosas de não conseguir acompanhar meus amigos nos bailinhos e encontros na cidade.

Como se sentir desejado ou desejada nessas circunstâncias, se o sexo é uma projeção negativa e ansiosa? Como nos reconhecer eroticamente potentes se as estruturas sociais e pessoais que nos envolvem e modulam nossas corporalidades deficientes são extremamente familiares, pedagógicas e médicas? O que estou buscando pontuar é que não adianta exaltar e defendermos a sexualidade da pessoa com deficiência como um <direito> ou algo <natural> se não passarmos a compreender o sexo e as práticas sexuais como um conjunto político de possibilidades e impossibilidades que se constroem na materialidade do cotidiano. E se os encontros corporais que fabricam possibilidades de práticas eróticas e sexuais são políticas, não há nada de natural na sexualidade humana; muito pelo contrário, fazer sexo ou exercer a sexualidade, são construções interativas saturadas por relações de poder que estão colocadas sociologicamente muito antes de qualquer ereção ou lubrificação. Isso implica constatarmos que precisamos ir além da burocratização de nossos desejos e atrações e ir além das afirmativas, extremamente relevantes politicamente, de que “sim, nós fodemos”. Isso nos ajudaria, enquanto <coletividade aleijada>, a percebermos as armadilhas da mera positivação ou orgulho sexual e a criarmos estratégias políticas para que os corpos com deficiência consigam transitar sem as restrições autoritárias e estruturais que outras corporalidades ditas <não deficientes> possuem.

Se conseguirmos mostrar a <materialidade da sexualidade>, isto é, todas as negociações cotidianas que as pessoas precisam fazer para terem uma <vida sexual ativa>, conseguiremos retirar a moralidade das percepções sobre a <sexualidade das pessoas com deficiência> como coisas de outro mundo e colocaremos o sexo como uma estrutura política que precisa cada vez mais ser acessibilizada por perspectivas que mesclem noções de cuidado e interdependências humanas.

As opiniões contidas neste texto são de responsabilidade do autor.

 

5d64d5c9-f8c2-48ba-a03b-de8783d55b25* Marco Antônio Gavério é cientista social e doutorando em Sociologia pelo programa de pós graduação em Sociologia da UFSCar. Suas pesquisas lidam com a temática da deficiência em intersecção sociocultural e histórica com as discussões sobre corporalidades, gênero e sexualidade. Em seu mestrado, investigou as dimensões produzidas cientificamente sobre o que definiu como desejos pela deficiência, isto é, discursos autorizados sobre indivíduos <normais> que sexualmente ou identitariamente se atraem por corpos deficientes