Ainda sobre o Dia Internacional da Síndrome de Down

*Ubiratan Vieira

Ontem foi o Dia Internacional da Síndrome de Down. Gosto muito dessa definição. Muito boa sacada essa metonímia, 3/21. Coisa de nerd. Hoje tenho reunião na escola de Francisco, meu filho, também com três cromossomos no par vinte um de cada célula de seu corpo. Não moro na mesma cidade dele. Então, por que não atender o pedido de meu caro Jota, na figura do blogue “Tudo bem ser diferente”, a quem agradeço o desafio da reflexão sobre paternidade.

A figura paterna é uma figura que nunca está ausente mesmo no abandono. Uma presença pontual no processo reprodutivo da espécie marca nossa participação no destino de outro ser. Daí que, nossa masculinidade, para além da reprodução, nos chama de alguma forma à paternidade. Abandonar ou se abandonar? Me diz aí se não é este um problema que N (um número indeterminado de) pais nos colocamos. Afinal, qual é a nossa participação paterna quando nos valorizamos tanto quanto o ser que resulta de nossa ínfima participação no processo reprodutivo? Esse era meu pai, carinhoso, brincalhão, orientador. De seu jeito, do jeito que sua geração possibilitou. O que quero dizer, é que quando sobra ou falta o pai, a paternidade está ali: carinho, brincadeiras e orientação. A aceitação e o acolhimento de si, também é importante. Queremos que nossos pais nos aceitem. Nossos filhos querem que os aceitemos. Mas, queremos que nossos filhos nos aceitem?

A trissomia do cromossomo vinte um é um acaso no processo reprodutivo. Se as chances são maiores quanto mais maduro é o ventre é por que, como muito bem concluiu Michel Bérubé, o ventre maduro é mais inclusivo. Mais aberto à diversidade humana. Não criemos expectativas sobre os seres que resultaram de nossa ínfima participação no processo reprodutivo. Vamos aceitar e acolher nossos filhos também e já.

Hoje é o dia internacional da síndrome de Down. Bacana isso de, 3/21…

 

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*Ubiratan Vieira é professor.