Tão linda, mas…

*Fatine Oliveira

Domingo, dia 22 de abril, enquanto navegava pelo twitter vi um comentário de minha amiga Mila Oliveira comentando a hashtag #HotPersonInAWheelchair seguida de suas fotos na cadeira de rodas.

Várias pessoas no exterior, também cadeirantes seguiam o mesmo estilo de postagem e resolvi saber o real motivo daquele movimento.

Em 2014, um americano chamado Ken Jennings, autor de vários best-sellers e apresentador de um programa chamado Omnibus resolveu postar em seu perfil no twitter a seguinte frase “Nada mais triste do que uma pessoa bonita em uma cadeira de rodas” (tradução livre)

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Print do perfil de Ken Jennungs no twitter. A frase em inglês é: “Nothing sadder than a hot person in a wheelchair”.

Como resposta ao seu pensamento capacitista, a comunidade de cadeirantes iniciou a campanha “Pessoa sexy na cadeira de rodas”, por meio da hashtag que citei inicialmente. Desde então, nos anos seguintes várias pessoas revivem a tag como uma maneira de expor o autor e confrontar sua ideia.

Nada de novo sob o sol

Como era de se esperar, muitas pessoas não viram nada demais na fala de Ken, concordando e compartilhando seu tweet. Quanto a reputação dele, nada mudou. Manteve seus privilégios de homem, branco e heterossexual. Seguiu sua vida e tampouco se desculpou do que disse.

Sempre vemos as pessoas amenizarem discursos capacitistas, alegando falta de conhecimento ou intenção do outro. Concordo que muito do preconceito parte da ausência de entendimento sobre nossas vivências, entretanto não devemos ser infantis. É preciso avaliar bem os autores para chegarmos a conclusões acertadas.

Várias amigas cadeirantes já ouviram a frase “Tão bonita, mas na cadeira de rodas” e muitas chegam a duvidar de suas potencialidades por causa deste estigma. Por esse motivo, gostei muito do modo que a comunidade americana encontrou para lidar com essa situação. Várias pessoas participaram enviando suas imagens e compartilhando suas experiências com a cadeira de rodas. Em um mundo padronizado, exaltar nossos corpos fora do padrão se torna um ato de resistência.

Espero que tenhamos, um dia, este tipo de mobilização aqui. Que mais pessoas com deficiência compreendam a necessidade de agirmos juntos para garantir o direito de todos.  

 

* Fatine Oliveira é formada em Publicidade e Propaganda e trabalha como freelancer de direção de arte. Tem 30 anos (mas não precisa espalhar!), adora café, seriados, quadrinhos e uma boa conversa no boteco. 😀