“A transexualidade representa um desafio mui interessante”

Texto publicado no site do Resista: Observatório de Resistências Plurais.

 

Lucas Platero tem uma lembrança muito especial de seu primeiro dia de escola. No uniforme que ele estreou naquele dia, sua avó bordou seu nome, e ele se dedicou a reproduzi-lo com um traço infantil em torno do desenho de sua casa. Agora, pela perspectiva docente, o início do calendário escolar lhe evoca a mesma ilusão de sua infância. Platero é doutor em Ciências Políticas e Sociologia, professor em intervenção sociocomunitária e diretor de estudos trans da Editora Bellaterra.

Lucas Platero (1)

#pratodosverem: foto de Lucas Platero. Ele é branco, com olhos verdes, usa um paletó de terno com riscas de giz.

Como você definiria a transexualidade?

Afastar-se do sexo atribuído no nascimento. Algumas pessoas apontam certa genitalidade ou corporeidade com relação ao sexo, mas há quem não se sente confortável com essa classificação. Para algumas pessoas, seria uma transição de um sexo a outro, mas outras pessoas trans percebem isso como um processo mais complexo e diverso.

Quais são as primeiras sensações em uma criança trans?

O processo de socialização está focado para entender que o mundo é dividido entre meninos e meninas e, na medida em que acedem à linguagem, ficam claramente marcados esses estereótipos de gênero. Mas há pessoas que desde muito cedo entendem que não se encaixam nesse lugar que lhes é atribuído. Esse processo, em alguns casos, é muito precoce, mas em outros pode levar a vida inteira. Há manifestações muito diversas, como sensações corporais, não querer vestir um tipo de roupa ou jogar certos jogos. Desde pequeno podem aparecer as primeiras sensações e você se pergunta se as pessoas ao redor te entenderão ou se é melhor mentir ou calar para que as pessoas mais próximas te aceitem. É uma situação muito difícil para uma pessoa muito jovem.

O que uma criança trans enfrenta em uma escola?

Risadas e, possivelmente, o pensamento por parte de famílias e professores de que é uma fase passageira, que não é importante, que o seu objetivo é chamar a atenção, ou que é resultado de uma atitude rebelde de ser do contra. Existe certa tendência para negar a realidade. Para uma criança, a sensação é de que se ela se comporta bem, será recompensada; se desobedece, podem castigá-la. Face a essa realidade de falta de apoio, é muito fácil internalizar sentimentos negativos que podem derivar, sem o apoio correto, em pesadelos, numa má autoimagem e até mesmo em estados depressivos.

Com que ferramentas devemos dotar a criança trans para que ela possa enfrentar melhor sua realidade?

O mais importante que os adultos devem fazer é ouvir. Às vezes, o que uma criança quer é muito mais simples do que parece: ela pode querer simplesmente não vestir determinada roupa, não participar de alguns jogos ou simplesmente gostaria de identificar-se com um nome que não marque tão claramente sua identidade. Os adultos, especificamente os pais, quando se deparam com essa situação, muitas vezes começam a pensar em coisas que não cabem naquele momento, como medicação, cirurgia ou levar a criança a uma clínica de saúde mental. Do que as crianças realmente precisam é que o adulto esteja ao seu lado, demonstre compreensão, escute pouco a pouco suas necessidades e caminhe junto delas.

Mas isso nem sempre é fácil para alguns pais e mães…

O importante é acompanhar. A transexualidade representa um desafio muito interessante, uma vez que, como adultos, enfrentamos uma situação que desconhecemos, como aquela criança. Para o adulto, abre-se uma bela oportunidade para aprender juntos. Isso também ocorre com outros temas, como necessidades especiais ou a diversidade funcional… Pais e filhos têm que estabelecer uma relação baseada em “vamos ver”, e ir provando, mas sempre ousando escutar sem castigar e sem impor sua autoridade à força.

Temos que romper muitos preconceitos…

Os adultos têm pressa para resolver conflitos, e o fundamental é ter paciência e agir. Enfrentamos o emaranhado que são nossas crenças binárias. De repente, com esse tipo de experiências, temos que começar a refletir e darmos conta de coisas aparentemente tão simples, como a de que recolher o lixo não é uma atividade exclusivamente masculina; que o rosa e o azul são simplesmente cores e não devem determinar nada; que uma Barbie é uma boneca com a qual se brinca. As atividades ou os jogos são precisamente isso – atividades e jogos –, e não podemos dramatizar nem pensar que tudo o que as crianças fazem tem um significado transcendental para o futuro.

Como podemos ajudar as crianças em sala de aula para que possam aceitar e integrar seus colegas trans?

O mais importante é que nós adultos repensemos o que dizemos e o que fazemos diante das crianças. Se fizermos drama sobre o que supomos ser diferente, não vamos ajudar a transmitir uma mensagem apropriada nem educativa. No entanto, e eu me coloco no papel de professor, se em sala de aula incorporamos de forma natural que existe a diferença, podemos falar tranquilamente de uma criança trans, de um gay ou de um imigrante africano. Nós professores temos que incorporar um olhar crítico para não referendar o binarismo, em que todo o masculino se acostuma a ser o melhor, e o feminino tem conotações negativas.

Portanto, o melhor exemplo é a naturalidade.

Os livros didáticos não falam em migrantes, trans, mulheres… Não damos exemplos sem sabermos se podemos transmitir atitudes e ações racistas, transfóbicas, classistas ou sexistas… O professor ou professora tem que planejar todas essas coisas com naturalidade, não como algo excepcional. A partir desse exercício cotidiano, qualquer coisa que aconteça em sala de aula será educativa, porque se um dia você definir um exemplo em que se destaquem duas mães ou uma família que migra, você gera esse espaço de aceitação. Com isso, não se tornaria mais necessário abordá-lo de uma forma especial ou extraordinária.

Que ações são necessárias para uma maior compreensão e integração de crianças trans nas escolas?

Repensar os espaços, os papéis sociais, nossos hábitos. A escola deve aproveitar o desafio que as pessoas trans trazem consigo para replanejar como atuamos. Refiro-me a refletir sobre um espaço como o banheiro, regulamentos sobre roupas como uniformes, bonés, saias, tatuagens… Nós professores e professoras devemos dar exemplos do cotidiano e nos mostrar como somos: gordos, adotados, trans, com inquietações… Além disso, devemos deixar uma mensagem muito clara e sermos inflexíveis: o assédio não é permitido e todas as pessoas têm direito a estar na escola para crescer e aprender.

O atual sistema educacional está preparado para tratar adequadamente a diversidade?

Isso pode ser feito. Às vezes, o que nós professores devemos fazer é nos distanciarmos um pouco do que os projetos educacionais nos obrigam por lei. Às vezes devemos agir um pouco, apesar da lei. Ninguém determina que devemos tratar o racismo em sala de aula, mas muitos o fazem. Tampouco levamos em consideração que temos alunos que não têm recursos para comprar os livros que pedimos que leiam e devemos contemplá-lo para oferecer soluções.

Em general, existe sensibilidade por parte dos professores para lidar com casos de transexualidade?

Cada vez mais, há mais interesse por essas vivências. Quando publicamos o livro Trans*exualidades, acompañamiento, factores de salud y recursos educativos, as pessoas me disseram: “não estamos preparados para abordar esse tema”, mas não vejo isso dessa maneira. Tenho a sensação de que há muitos profissionais interessados em gerar situações carinhosas com seus alunos e querem saber mais. Para fazer isso, você tem que treinar e ler. O trabalho que realizamos com a Editora Bellaterra vai nessa linha: gerar literatura que possa ser útil. Percebo que quando participo de palestras e conferências sobre esse tema, há muito interesse e a sala fica cheia de professores que querem que demos pistas e ferramentas para tratar esse assunto da melhor maneira.

Mas, em alguns casos, ainda é um assunto tabu.

É verdade que, em alguns casos, ainda pode ser um tema tabu, sobretudo em determinadas escolas privadas ou confessionais, mas o que percebo é que existe muito interesse em conhecer e aprender para dar a melhor resposta possível. Isso não significa ignorar más práticas que ainda persistem e sobre as quais devemos continuar atuando, com a lei em mãos.

Você conhece algum projeto educacional especialmente significativo sobre educação em igualdade e direitos LGBT?

Existem alguns centros educativos que estão fazendo esforços nesse sentido. Um bom exemplo é o do Instituto San Isidro, em Madri, que está construindo as bases para converter-se em LGBT friendly, como eles mesmos definem. Estão desenvolvendo um excelente trabalho para acolher meninos e meninas que se sentem mal ou são recusados em outros colégios. Da mesma forma, no IES Renacimiento, onde trabalho, estamos impulsionando diversas ações e organizamos regularmente mesas de debate ou damos voz a testemunhos pessoais, os quais são muito enriquecedores e fomentam a percepção de aceitação a que me refiro a todo momento.

Em que aspectos você considera que houve avanços em relação a tempos passados na aceitação de crianças trans?

Estamos no momento em que deixamos de considerá-lo um tema tabu e que começa a existir um material educativo que ajuda a entender e tornar cotidiana a existência da transexualidade. Existem várias disciplinas curriculares nas quais cabem claramente esses temas, mas o mais interessante é poder tratá-lo de maneira transversal em todas as disciplinas, seja em matemática, física ou literatura, já que em todas elas podem ser colocados exemplos simples para promover a aceitação.

Anúncios