Sobre a construção da paternidade.

#pratodosverem: a foto em destaque é minha com o João. Estamos no estádio Independência, assistindo a um jogo do Clube Atlético Mineiro. João está sobre os meus ombros (famoso cavalinho). Nós dois estamos muito felizes na foto.

*Carlos Wagner

Da mesma forma que a maternidade não é um instinto, a paternidade é um produto da aprendizagem social.

Quando decidimos ter o João, me preparei para a paternidade. Ela não estava nas minhas mitocôndrias (sempre achei que essa é a parte mais profunda da minha pobre natureza), não sabia como ser pai. Já tinha visto vários pais, vários deles eram exemplos do que não gostava, alguns eram gurus dessa forma de estar no mundo. O que percebo que sou um pastiche do que gosto e do que não gosto. Um pai em construção de uma criança que já me causa inquietações maravilhosas.

Já vinha há anos lendo sobre essa experiência, trocando ideias, pensando que tipo de pai gostaria de ser e como fazer dessa forma pai, uma experiência que valesse a pena. Minha escolha de como ser pai, veio pela tentativa de mesclar o cuidado e a regra. Se tem valido a pena? Às vezes sim, às vezes não. Em alguns momentos me sinto muito satisfeito comigo e com o resultado do meu esforço, mas de quando em quando, sinto a tristeza de quem fracassou. E assim vou levando o aprendizado dessa exigente demanda que é tornar-se pai.

Ouvi absurdos nestes últimos 10 anos; sem tentar justificar, mas acredito que muitos homens que abandonam a paternidade quando os filhos nascem com deficiência, vem da ideia que paira sobre nós: de que somos menos masculinos por termos filhos com deficiência. Eu ouvi de pessoas que gosto que o motivo da deficiência do João era a qualidade do meu espermatozoide, outros disseram que no momento da ejaculação meu pênis estava “meia-bomba”, outros ainda insinuaram que tenho mais estrogênio no corpo que outros homens normais. A minha salvação, se é que isso existe, é que nunca me achei muito normal. Assim, apesar de ter sentido ódio e dó das pessoas que me disseram isso, de alguma forma construí um discurso sobre mim mesmo que não cabe muito bem sobre o debate homem sexo forte.

Tenho sido forjado no cuidado e na luta, na esperança e na descrença, no estar junto de pessoas que gosto e tangenciar pessoas que dou pouco valor. Se o motivo da diferença corporal do meu filho é minha falha como homem, sexo masculino, muito tenho a lhe permitir da melhor vida. Tento estabelecer uma acessibilidade paterna, pois o “problema” não está nele nem em mim.

No dia dos pais, que foi no último dia 12 de agosto de 18, recebi um bilhete lindo do João. Ele me fala do amor que ele tem por mim, o tanto que ele sabe que eu o amo, mas de como eu poderia ser melhor pai. Consegui o que queria, tenho um filho capaz de me questionar, consegui o que queria, o João saber que eu não sou super pai, consegui o que queria, ser tão humano como ele.

*Carlos Wagner Jota Guedes é sociólogo, pai do João Francisco, consultor em direitos das pessoas com deficiência e atleticano.