Inquietações

A inquietude com a chamada educação inclusiva me trouxe algumas noites de insônia e uma vontade danada de discutir o assunto. Incluir significa, como gostam de dizer as escolas, “aceitar” um aluno que tenha algum tipo de necessidade especial? Incluir significa colocá-lo em uma sala de aula com crianças que, em tese, não são diferentes ou especiais? Qual o papel das famílias? É possível uma parceria das famílias com a escola e vice-versa? As crianças têm voz nesse processo?

As escolas conseguem atender às demandas dessas crianças, estão preparadas para isso? Por que alguns profissionais passam aos pais a ideia de que estão fazendo um favor?

Professores, monitores, comunidade escolar conseguem entender o universo dessas crianças? Se envolvem efetivamente nas necessidades das crianças para melhorar a qualidade da participação dessas crianças nas escolas? As escolas conseguem mensurar resultados a não ser pelas notas dos alunos?

E a sociedade? Como pode participar efetivamente? Pode contribuir?

Você é nosso convidado a debater o assunto. Mande-nos sua opinião, suas experiências, participe conosco: oi@tudobemserdiferente.com.

“Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem, lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize”, Boaventura de Souza Santos

O igual de alguma maneira sempre me incomodou. Nunca gostei de cores iguais, raças iguais, roupas iguais, cabelos iguais, pessoas iguais, ideias iguais, comportamentos iguais… Talvez venha daí a minha dificuldade com o padrão, o enquadramento, de novo o igual…

Mas o que é ser igual? O dicionário Houaiss, o meu preferido, traz algumas opções: que numa comparação não apresenta diferença quantitativa ou qualitativa, que apresenta a mesma proporção, natureza, aparência, valor, intensidade; equivalente, cujos direitos e deveres  não diferem, que não apresenta desnível, plano, liso; pessoa que não faz distinção de caráter social, econômico ou intelectual no trato com outra; pessoa que não apresenta diferença de qualidade ou de valor em relação a outra; tal como, tal qual; igualmente, sem distinção…

E o que é ser diferente? No mesmo Houaiss: o que difere parcial ou totalmente; que não é semelhante, igual ou idêntico; distinto; vário; que apresenta algum aspecto novo ou desconhecido; que sofreu alteração; mudado; modificado; que não é frequente, raro, incomum…

Não preciso dizer a minha predileção pelo diferente mesmo que o dicionário ainda não traga explicação mais humanizada, mais próxima dos dias atuais. Mas ser igual ou diferente não rotula? Tampouco gosto de rótulos. A diferença apareceu de maneira mais intensa com o nascimento do meu único filho. Essa diferença não está prevista na lei das crianças especiais, muitas vezes não é perceptível; outras vezes está escondida na beleza e no discurso elaborado, ainda que infantil. Ela está na sutileza, nos detalhes, só pode ser compreendida por pessoas sensíveis. E as pessoas sensíveis não são iguais…

“Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma…” Clarice Lispector.

“A vida é como a música. Deve ser composta de ouvido, com sensibilidade e intuição, nunca por normas rígidas…”, Samuel Butler.

Reproduzo um texto da professora Adélia Barrroso Fernandes sobre o tema, escrito especialmente para o blog TudoBemSerDiferente:

“Lutar pela igualdade ou pela diferença?

Durante muitos séculos as pessoas nasciam com uma marca bem definida na vida. A linhagem familiar, social e econômica não permitia nenhum tipo de mudança. O destino de cada um estava decidido antes mesmo do nascimento. Eram os tempos em que as diferenças eram muito grandes entre as pessoas, a ponto de até a alma ser considerada de cor diferente ou até mesmo inexistente em certos grupos sociais. O que decidia se uma pessoa era superior ou inferior era sua origem e isso pertencia a Deus. Portanto, se Deus quis assim, o conformismo e a submissão ao destino eram muito fortes.

Mas o bicho homem é muito desassossegado. Essa diferença enorme entre as classes, os grupos, os gêneros e os traços físicos começou a incomodar os mais valentes. Por volta do século XVII e XVIII a literatura, a música e alguns textos filosóficos  apresentam essa inquietação. Porque as pessoas são tratadas de forma tão diferentes e têm condições de vida tão desiguais? A luta pela igualdade estava apenas começando.

Foram muitos e muitos episódios tristes e dramáticos até construirmos em 1948 a Carta Universal dos Direitos Humanos, que em seu princípio quer assegurar que todos tenham oportunidades iguais e sejam tratados com dignidade indiferente de sua origem familiar, religiosa, gênero, raça, etc.

Esse marco histórico trouxe muitos avanços para todos que lutam pela igualdade. Primeiro foram as mulheres, depois os negros, os velhos, as crianças e adolescentes, os deficientes físicos e mentais. Todos que se sentiam em situação de desigualdade e com menos direitos começaram a apelar pela igualdade. A luta pela igualdade foi crescendo e hoje não conhecemos nenhuma categoria que não levante essa bandeira.

Mas…

Lutar pela igualdade não quer dizer que somos iguais. Há uma pequena confusão nisso e alguns teóricos tratam bem dessa questão (Stuart Hall, Boaventura de Sousa Santos, Alain Touraine, etc).

Devemos lutar pelos direitos a oportunidades iguais desde que nascemos. Não podemos não estudar porque somos negros, não podemos não ganhar bons salários porque somos mulheres, não podemos apanhar porque somos crianças…

Temos o direito de ter as mesmas oportunidades, as mesmas condições de todos para desenvolver nossas potencialidades. Para isso, as diferenças têm que ser:

– Reconhecidas

– Respeitadas

– Amparadas com leis específicas se for necessário (Chamadas leis afirmativas)

Vamos a um exemplo muito conhecido. As mulheres lutam pela igualdade de direitos. No que estão certíssimas. Mas para terem oportunidades iguais, tiveram que lutar também pelo reconhecimento de uma diferença que as empurravam para baixo. A maternidade. Toda vez que a mulher ficava grávida era ameaçada de perder o emprego. Então, essa diferença, a maternidade, teve que ser Reconhecida, Respeitada e Amparada por leis específicas que protegem a mulher nesse momento da gravidez e do parto. Então, lutar pela igualdade avançou a ponto de a diferença ter que entrar nessa conta.

Outro exemplo são as crianças e adolescentes. Elas devem ter oportunidades iguais, ter igualdades de condições na sociedade. Mas para isso é preciso reconhecer que crianças e adolescentes precisam de algumas leis que as protejam de abusos do mercado de trabalho, do mercado publicitário e de alguns adultos. Às vezes precisamos proteger as crianças e adolescentes dos seus próprios pais. Essa proteção dada pela lei é para que tenham oportunidades um pouco melhores, que se igualem em oportunidades àquelas crianças e adolescentes que estão amparadas.

A luta pela igualdade hoje anda muito juntinha com a luta pelo reconhecimento e amparo às diferenças. Se não for assim cometeremos muitas injustiças. Quer ver?

Se todos são iguais perante a lei, porque fazer uma lei específica para deficientes físicos? Eles querem rampas, mais acessibilidade, etc. Alguém pode dizer: não querem ser iguais? E pedem tanta coisa que os diferenciam? Então, voltamos ao início desse pequeno texto. As pessoas não podem ser marcadas pelo nascimento como acontecia há séculos atrás. Não é porque alguém nasce ou adquire uma deficiência que seu destino está definido. A sociedade reconhece em cada ser humano (Direitos Humanos de 1948) uma potencialidade única que deve ser estimulada e protegida.

Se você se sente oprimido pela igualdade, lute pela diferença. Se você se sente oprimido pela diferença, lute pela igualdade.  Cada vez que uma categoria avança em conquistas de direitos, todos ganham. Porque um dia você pode precisar justamente dessa conquista para dar um passo à frente e se tornar mais livre, mais feliz, mais humano”.

Abraços,

Adélia Barroso Fernandes

Professora de jornalismo e especialista em Direitos Humanos”

 

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